Processo de transformação

“O estar voltado para dentro de si significa “que o homem está orientado para dentro de si mesmo, para dentro do próprio palavras íntimas de Deus”. Esta nova disposição da consciência, surgida da prática religiosa, não se caracteriza pelo fato de que as coi sas exteriores não afetam mais a consciência da egoidade da qual se originara uma recíproca vinculação, mas sim pela circunstância de que uma consciência vazia permanece aberta a uma outra influência. Esta “outra” influência não é mais sentida como uma atividade própria, e sim como a atuação de um não eu que tem a consciência como seu objeto. É, por conseguinte, como se o caráter subjetivo do eu fosse transferido ou assumido por outro sujeito, que tomasse o lugar do eu. Temos aqui a conhecida experiência religiosa já formulada por Paulo. É fora de dúvida que se trata da descrição de um novo estado de consciência, separado do primeiro por um processo de profunda transformação religiosa.

*Gl 2,20: “Eu vivo, mas já não sou eu, mas o Cristo que vive em mim”.

O intelecto não se interessa pela condição do sujeito que perce- be, na medida em que este pensa logicamente. O intelecto se ocupa, por sua própria natureza, com a assimilação dos conteúdos da consciência e talvez também com os métodos assimilativos. Torna-se necessária uma paixão filosófica para forçar a tentativa de subjugar o intelecto e avançar até o conhecimento daquele que é o sujeito da percepção. Tal paixão dificilmente se distingue das forças religiosas propulsoras, e por isso todo esse problema faz parte do processo de como se tivéssemos virado a transformação religiosa que é incomensurável ao intelecto. A filosofia antiga  está indubitavelmente e em larga escala a serviço do processo de transformação, o que não se pode afirmar amplamente acerca da filosofia moderna.

(…) Angelus Silesius

Meu corpo é uma casca na qual um pintainho será chocado pelo Espírito da eternidade

 

JUNG, C.G. Psicologia e Religião Oriental,OC. Editora Vozes. 2011. Pág. 86-88.

Prefácio à obra de Suzuki: A Grande Libertação

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Gostei e vejo sentido em compartlhar essa ideiA

Facebook
Twitter
Pinterest

QUER MAIS?