Consciente e Inconsciente

“A completa destruição do intelecto racional, visada na formação do monge, cria uma falta de pressuposto quase absoluta da consciência. Mas por mais que se exclua este pressuposto, não se elimina o pressuposto inconsciente: a disposição psicológica existente, mas não percebida, é tudo, menos um vazio e uma falta de pressuposto. Trata-se de um fator natural, quando ele responde – coisa que acontece, evidentemente, na experiência do satori – é uma resposta da natureza que consegue canalizar diretamente a sua reação para a consciência.

O mundo da consciência é, inevitavelmente, um mundo cheio de e de muros que bloqueiam os caminhos. Ele é, por natureza, sempre unilateral e esta unilateralidade resulta da essência mesma da consciência. Nenhuma consciência pode abrigar mais do que um número diminuto de representações simultâneas. O restante deve ficar na sombra e subtraído à vista. Aumentar os conteúdos simultâneos provoca, de imediato, um obscurecimento da consciência, ou até mesmo uma perturbação que pode chegar à desorientação.

A consciência em si pela própria essência não só exige, mas é uma delimitação rigorosa a um círculo diminuto e portanto bem definido de conteúdos. (…) é absolutamente impossível imaginar o que aconteceria, se uma consciência individual conseguisse abarcar, de um só relance, o quadro simultâneo de tudo quanto se possa imaginar. Se o homem já conseguiu construir o edifício do mundo com as poucas coisas claras e definidas que foi capaz de imaginar simultaneamente, que espetáculo divino descortinaria se pudesse imaginar ao mesmo tempo e com clareza uma multidão de coisas? (…)Esta incapacidade de imaginar é, naturalmente, impossível na forma consciente, mas é um fato na forma inconsciente, dado que tudo quanto está situado na zona subliminar é sempre virtualmente representável. O inconsciente é a totalidade, não passível de observação direta, de todos os fatores psíquicos subliminares, um “espetáculo total” de natureza potencial. Ele constitui a disposição total da qual a consciência só retira pequenos fragmentos de cada vez.

Quando a consciência é esvaziada, tanto quanto possível de seus conteúdos, estes cairão também em um estado de inconsciência (pelo menos transitório). Este recalque, via de regra, produz-se subtraindo-se aos conteúdos a energia da consciência e transferindo-a, ou para o conceito do vazio ou para o koan. Como estes dois últimos devem ser estáveis, a sucessão de imagens é abolida e consequentemente também a energia que alimenta o dinamismo da consciência. A quantidade de energia economizada é absorvida pelo inconsciente, reforçando a sua carga natural, até um certo valor máxi mo. Isto aumenta a facilidade com que os conteúdos inconscientes ir rompem na consciência. Como o esvaziamento e o fechamento da consciência não são tarefas fáceis, requer-se um treinamento (training) especial e um período indefinidamente longo, para produzir aquele máximo de tensão que levará à eclosão final dos conteúdos inconscientes no âmbito da consciência.

Os conteúdos que irrompem na consciência não são absolutamente destituídos de sentido. (…)Trata-se das mesmas relações que existem entre os sonhos e a consciência de um homem normal em estado de vigília. A conexão é, em substância, uma relação compensatória. Os conteúdos do inconsciente, com efeito, trazem à superfície tudo aquilo que é necessário, nosso mais amplo do termo, para a totalização, isto é, para a totalidade da orientação consciente. Se o indivíduo conseguir enquadrar harmoni camente na vida da consciência os fragmentos oferecidos ou forçados pelo inconsciente, resultará então uma forma de existência psíquica que corresponde melhor à personalidade individual e, por isso, também elimina os conflitos entre a personalidade consciente e inconsciente.

É neste princípio que se baseia a moderna psicoterapia, na média em que pôde se libertar do preconceito histórico segundo o qual o inconsciente só abriga conteúdos infantis e inferiores. Nele existe certamente um recanto inferior, um quarto de despejo de segredos impublicáveis que não são propriamente inconscientes, mas dissimulados e apenas semiesquecidos. Mas isto tem tanto a ver com o conteúdo, tomado como um todo, quanto, por exemplo, um dente cariado com a personalidade total. O inconsciente é a matriz de todas as afirmações metafísicas, de toda a mitologia, de toda a filosofia (desde esta não seja meramente crítica) e de todas as formas de vida que se baseiam em pressupostos psicológicos.

Cada irrupção do inconsciente na consciência é uma resposta a uma situação bem definida da consciência, e esta resposta promana das possibilidades reais de representação, isto é, da disposição global que, como foi explicado acima, é uma imagem simultânea in potentia (potencial) da existência psíquica em geral. A dissociação em unidades isoladas, seu caráter unilateral e fragmentário se radicam na própria essência da consciência. A reação proveniente da disposição tem sempre o caráter de totalidade, pois reflete uma natureza que não foi dividida por uma consciência discriminativa. Daí o seu efeito avas salador! É a resposta inesperada, abrangente, totalmente elucidativa, que atua como iluminação e como revelação quando a consciência parar num beco sem saída.”

JUNG, C.G. Psicologia e Religião Oriental,OC. Editora Vozes. 2011. Pág. 90-94.

Prefácio à obra de Suzuki: A Grande Libertação

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