Nossa psicologia ocidental x Ioga

(…) por trás e debaixo do mundo das fantasias, surge uma camada ainda mais profunda do inconsciente que, ao contrário da desordem caótica das Kleças, é de uma ordem e de uma harmonia insuperáveis, e que, ao invés da multiplicidade daquelas, representa a unidade universal do “mandala do bodhi”, o círculo mágico da iluminação.

Mas o que tem nossa psicologia a dizer a respeito desta descoberta hindu de um inconsciente suprapessoal e universal que surge, de algum modo, quando as trevas do inconsciente pessoal se tornam transparentes? Nossa psicologia sabe que o inconsciente pessoal nada mais é do que uma camada superposta que se assenta em uma base de natureza inteiramente diversa. Esta base é o que chamamos de inconsciente coletivo. A razão desta denominação está na circunstância de que, ao contrário do inconsciente pessoal e de seus conteúdos meramente pessoais, as imagens do inconsciente mais profundo são de natureza nitidamente mitológica. Isto significa que essas imagens coincidem, quanto à forma e ao conteúdo, com as representações primitivas universais que se encontram na raiz dos mitos. Elas não são mais de natureza pessoal, mas são puramente suprapessoais e, consequentemente, comuns a todos os homens. Por isso é possível constar tar sua presença nos mitos e nas fábulas de qualquer povo e de qualquer época, bem como em indivíduos que não têm o menor conhecimento consciente de mitologia.

Nossa psicologia ocidental avançou realmente, tanto quanto a ioga, pela circunstância de estar em condições de constatar cientificamente a existência de uma camada do inconsciente comum a todos os indivíduos. Os temas mitológicos cuja existência foi demonstrada pela investigação do inconsciente constituem, a rigor, uma multiplicidade, mas esta multiplicidade culmina em um arranjo concêntrico e radial, que constitui verdadeiramente o centro ou a essência do inconsciente coletivo. Dada a coincidência notável dos resultados da pesquisa psicológica com os conhecimentos da ioga, escolhi o termo sânscrito “mandala”, que significa “círculo”, para designar este símbolo central.

(…)via histórica. 

(…) psicologia empírica. A um determinado estágio do tratamento psíquico, os pacientes desenham às vezes, espontaneamente, esses mandalas, seja porque sonharam com eles, seja porque sentem de súbito a necessidade de compensar sua desordem psíquica com a representação de um conjunto ordenado.”

(…)

“Existe uma diferença muito sutil, mas enorme, entre o mandala cristão e o mandala budista. O cristão jamais dirá em sua contemplação: Eu sou Cristo; pelo contrário, confessará, como Paulo: “Eu vivo, mas já não sou eu, é Cristo que vive em mim” (Gl 2,20). Mas nosso sûtra afirma: “Saberás que tu é que és Buda”. No fundo, estas duas confissões são idênticas, visto que o budista atinge este conhecimento quando se torna “anâtman”, isto é, sem o si-mesmo; mas há uma grande diferença na formulação: o cristão “alcança” a sua meta em Cristo, ao passo que o budista se reconhece como Buda. O cristão parte justamente do mundo transitório do eu, enquanto o budista se apoia ainda no fundamento eterno da natureza interior cuja união com a divindade ou com a essência universal encontramos também em outras confissões hindus.”

 

JUNG, C.G. Psicologia e Religião Oriental,OC. Editora Vozes. 2011. Pág.116-118.

Considerações em torno da psicologia da meditação oriental

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