Do ego para o si-mesmo

“A Índia moderna assumiu em larga escala, e posso confirmá-lo por minha própria experiência, a terminologia europeia: o “si-mesmo”, ou âtman, e Deus são termos essencialmente sinônimos.

As limitações inerentes à crítica do conhecimento nos distanciam daquilo que designamos pelas expressões “si-mesmo” ou “Deus”. A equação “si-mesmo Deus” parece repugnar ao pensamento europeu. (…) Psicologicamente, a única afirmação que se pode fazer é que o “si-mesmo” apresenta uma sintomatologia religiosa parecida com a daquele complexo de afirmações que vem associado ao termo “Deus”. Embora o fenômeno religioso da “emoção” ultrapasse os limites da crítica do conhecimento, por ser-lhe incomensurável, aspecto este que tem em comum com todas as manifestações de caráter emocional, o impulso humano em direção ao conhecimento impõe-se constantemente, com uma pertinácia e uma teimosia “antidivina” ou “luciferiana”, e mesmo com uma certa necessidade, para lucro ou dano do homem pensante. Por isso mesmo, mais cedo ou mais tarde o homem se oporá numa atitude puramente cerebral à sua emoção e procurará subtrair-se ao jugo do impulso emocional, para poder perceber o que lhe acontece. Se agir com circunspecção e com consciência, ele tornará a descobrir pelo menos uma parcela de suas experiências representa uma interpretação humanamente limitada, tal como a visão da serpente de muitos olhos, de Inácio de Loyola, que inicialmente ele julgou de r tureza divina, concluindo mais tarde que provinha do diabo. Para o hindu é evidente que o si-mesmo não se distingue de Deus, como fonte psíquica, e que o homem, por se achar em seu si-mesmo, não apenas está contido em Deus, como também é o próprio Deus.

(…)

O objetivo da prática oriental é idêntico ao da mística ocidental: desloca-se o centro de gravidade do ego para o si-mesmo, do homem para Deus; o que quer dizer que o eu desaparece no si-mesmo, e o hoem em Deus.

(…) “Quão poucos são os que conseguem a çar a união (samâdhi) e se libertar deste eu (aham). Raras vezes se consegue isto. Discute o quanto quiseres; distingue sem parar- este eu sempre voltará a ti. Corta hoje o choupo, e verá amanhã que ele brotou de novo”. Ele chega ao ponto de indicar a indestrutibilidade do eu, com as seguintes palavras: “Se no final não puderes destruir este ‘eu’, trata-o como ‘eu, o escravo”

Se o considerarmos como o compêndio da totalidade psíquica (isto é, como a totalidade constituída, pela consciência e pelo inconsciente), o si-mesmo representa, de fato, um dos escopos da evolução psíquica, e isto independentemente de quaisquer opiniões ou expectativas conscientes. Ele representa o conteúdo de um processo que, em geral, desenrola-se até mesmo fora da esfera da consciência e só revela sua presença por uma espécie de ação à distância sobre esta última. Uma atitude crítica no confronto com este processo natural permite-nos levantar questões que a fórmula si-mesmo= Deus a rigor exclui de antemão. Esta fórmula mostra-nos que o motivo religioso-ético inequívoco é a dissolução do eu no âtman, tal qual exemplificado na vida e no pensamento de Shri Ramana. É evidente que isto também vale para a mística cristã que, em última análise, só rente. Uma consequência inevitável que daí resulta é a supressão do homem físico e psíquico (do corpo vivo e do ahamkâra), em favor do homem pneumático.(…) Mesmo reconhecendo que não é o seu eu que falará doravante, mas o âtman, ainda assim precisamos dizer que é a estrutura psíquica da consciência e o corpo que nos proporcionam a comunicação no pla no da palavra. Sem o homem físico e psíquico, por certo bastante discutível, o si-mesmo é inteiramente destituído de objeto, como já dizia Angelus Silesius:

“Sei que sem mim

Deus não pode viver um só momento

Ele morreria de carência

Com o meu aniquilamento”.

 

JUNG, C.G. Psicologia e Religião Oriental,OC. Editora Vozes. 2011. Pág.122-126.

O Santo Hindu( Introdução à obra de H.Zimmer: O Caminho que Leva ao si-mesmo)

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