A capacidade de reflexão constitui um benefício

“(…) A emoção pode ser uma verdadeira dádiva divina ou um produto infernal. A degradação começa com a ausência de moderação, ainda que o obscurecimento da consciência, que lhe é intrínseca, pareça tornar a consecução do fim supremo o mais próxima possível. Só a capacidade de reflexão, num grau mais alto e mais intenso, constitui um benefício verdadeiro e duradouro.

Fora as banalidades, infelizmente não existem afirmações filosóficas ou psicológicas que, em breve, não tenham de sofrer distorções. Assim é que a reflexão como um fim em si mesma apenas significa estreiteza intelectual, quando não se afirma em meio a confusão de extremos caóticos, do mesmo modo que o mero dinamismo como fim em si mesmo conduz ao embrutecimento mental. Cada coisa precisa de seu oposto, para poder existir; senão se evaporará no puro nada. O eu precisa do si-mesmo, e vice-versa. As relações cambiantes entre as duas grandezas constituem um campo de experiência que o conhecimento introspectivo do Oriente explorou em proporções quase inalcançáveis pelo homem ocidental.

(…)

Muita coisa já se perdeu, não só na India como na China, onde outrora vivia e prosperava a alma. A alienação da cultura pode acabar com muitos inconvenientes cuja eliminação parece sumamente desejável e vantajosa, mas este progresso, por outro lado, tem sido pago com o preço demasiado alto da perda da cultura da alma, como nos mostra a experiência. (…) Não há dúvida de que a vida do homem comporta ainda muitas melhorias e embelezamentos, mas tais coisas perdem o seu sentido quando o homem interior não as acompanha. É claro que saciar-se com todo o “necessário” pode ser uma fonte considerável de bem-estar, mas acima de tudo está o homem interior, proclamando suas exigências que não podem ser satisfeitas com bens exteriores. E quanto menos se prestar ouvidos a esta voz, que ultrapas- sa a busca incontida das glórias deste mundo, tanto mais o homem in- terior se converterá numa fonte de inexplicáveis fracassos e de incom- preendida infelicidade.”

JUNG, C.G. Psicologia e Religião Oriental,OC. Editora Vozes. 2011. Pág.127-129.

O Santo Hindu( Introdução à obra de H.Zimmer: O Caminho que Leva ao si-mesmo)

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