A Realidade da Psique e as Forças do Inconsciente

“Mas o que é a psique? Um preconceito materialista a considera apenas como um simples epifenômeno, um produto secundário do processo orgânico do cérebro. Afirma-se que todo transtorno psíquico deve ter uma causa orgânica ou física, ainda que não possamos demonstrá-lo, devido à imperfeição dos meios atuais de diagnóstico. A inegável conexão entre a psique e o cérebro confere a este ponto de vista uma certa importância, mas não de maneira alguma em aceitação exclusiva.

(….)

Mas vi um caso de febre histérica, com temperatura de trinta e nove graus, curada em poucos minutos depois de detectada, mediante confissão, sua causa psicológica. E como explicaríamos os casos de enfermidades físicas, que são influenciadas ou mesmo curadas pela simples discussão de certos conflitos psíquicos penosos? Presenciei um caso de psoríase, que se estendia praticamente por todo o corpo e que depois de algumas semanas de tratamento psicológico diminuiu em cerca de nove décimos. Num outro caso, um paciente foi submetido a uma operação, por causa da dilatação do intestino grosso; foram extraídos quarenta centímetros deste último, mas logo se verificou uma considerável dilatação da parte restante. O paciente, desesperado, recusou-se a uma segunda operação, embora o cirurgião afirmasse sua urgência. Pois bem, logo que foram descobertos certos fatos psíquicos de natureza íntima, o intestino grosso do paciente começou a funcionar normalmente.

Experiências deste tipo, nada raras, tornam muito difícil acreditar que a psique nada representa ou que um fato imaginário é irreal. A psique só não está onde uma inteligência míope a procura. Ela existe, embora não sob uma forma física. É um preconceito quase ridículo a suposição de que a existência só pode ser de natureza corpórea. Na realidade, a única forma de existência de que temos conhecimento imediato é a psíquica. Poderíamos igualmente dizer que a existência física é pura dedução, uma vez que só temos alguma noção da matéria através de imagens psíquicas, transmitidas pelos sentidos.

(…) Acredito mesmo que os transtornos psíquicos são mais perigosos do que as epidemias e os terremotos. Nem mesmo as epidemias de cólera ou de varíola da Idade Média roubaram a vida a tantos homens como certas divergências de opinião por volta de 1914 ou certos “ideais” políticos na Rússia.

(…)A psique existe, e mais ainda: é a própria existência.

(…)

Eu suponho, de fato, que sua ideia do carcinoma é uma excrescência espontânea de uma parte da psique que não se identifica com a consciência. Ela se manifesta como uma formação autônoma, que se infiltra através da consciência.

(…)

Todas as vezes que uma palavra-estímulo toca em alguma coisa ligada ao complexo escondido, a reação da consciência do eu é alterada ou mesmo substituída por uma resposta orientada do referido complexo. É como se o complexo fosse um ser autônomo, capaz de perturbar as intenções do eu. Na realidade, os complexos se comportam como personalidades secundárias ou parciais, dotadas de vida espiritual autônoma.

 (…)

Homo homini lupus é uma máxima triste, mas de validade eterna. O homem tem, de fato, motivos suficientes para temer as forças impessoais que se acham ocultas em seu inconsciente. Encontramo-nos numa feliz inconsciência, uma vez que tais forças parecem, ou pelo menos quase nunca, se manifestam em nossas ações pessoais e em situações normais. Por outro lado, quando as pessoas se reúnem em grande número, transformam-se em turba desordenada, desencadeando-se os dinamismos profundos do homem coletivo: as feras e demônios que dormitam no fundo de cada indivíduo, convertendo-o em partícula de uma massa. No seio da qual interior, que sempre existe sob o limiar da consciência, e o inconsciente está sempre pronto para irromper, logo que ocorra a formação e atração de uma massa.

(…)

Temos propensão de nutrir as ilusões mais audaciosas, mas nada poderia explodir em nós se já não existisse de antemão. Na realidade, vivemos sempre como que em cima de um vulcão, e a humanidade não dispõe de recursos preventivos contra a possível erupção que aniquilaria todas as pessoas ao seu alcance. Por certo, é bom pregar a sã razão, o bom-senso, mas o que fazer se o auditório é constituído pelos moradores de um manicômio ou pela massa fanática? Entre os dois casos não há grande diferença, pois o alienado, tal como a turba, é movido por forças impessoais que o subjugam.”

JUNG, C.G. Psicologia e Religião.Psicologia e Religião Ocidental e Oriental ,OC. Editora Vozes. 2012. Pág.23-28.

I. A Autonomia do insconsciente

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