A Ioga e o ocidente

“Mas todos estes sistemas se situam na linha religiosa e recrutam a maior parte de seus adeptos no seio do protestantismo. No fundo, trata-se nada mais do que de seitas protestantes. O protestantismo concentrava seus golpes contra a autoridade da Igreja, abalando principalmente a fé nessa mesma Igreja enquanto transmissora e comunicadora da salvação divina. Isso fez com que coubesse ao indivíduo o ônus da autoridade e, consequentemente, uma responsabilidade religiosa que até então não tivera. O declínio da prática da confissão dos pecados e da absolvição agravou ainda mais o conflito moral interior do indivíduo, sobrecarregando-o de uma série de problemas de que a Igreja outrora o poupara, na medida em que seus sacramentos, e em particular o sacrifício da missa, garantiam a salvação ao fiel, graças à realização da ação sagrada pelo ministério do sacerdote. Para tanto, o indivíduo devia contribuir apenas com a confissão pessoal dos cados, com o arrependimento e a penitência. Com a eliminação da ação sagrada eficaz, passou a faltar a resposta de Deus ao propósito do indivíduo. São estas as lacunas que explicam o anseio e a busca de sistemas que prometessem essa resposta, ou seja, um gesto de complacência e aceitação por parte de outrem (superiores, diretores espirituais ou mesmo Deus).

Como o protestantismo não tem um caminho previamente traçado, qualquer sistema que lhe permita um desenvolvimento adequado é, por assim dizer, bem visto por ele. No fundo, deveria fazer tudo aquilo que a Igreja sempre fez como mediadora, só que agora não sabe como fazê-lo. Tendo levado a sério as próprias necessidades religiosas, também fez esforços inauditos para crer. Mas a fé é um caris- ma, um dom da graça, e não um método. E é justamente um método que faz falta aos protestantes, a ponto de muitos deles terem se interessado seriamente pelos exercícios espirituais de Inácio de Loyola, rigorosamente católicos. Mas o que mais os perturba é a contradição entre a verdade religiosa e a verdade científica, o conflito entre a fé e o saber que, através do protestantismo, afetou até mesmo o catolicismo. Este conflito existe única e exclusivamente por causa da cisão histórica operada no pensamento europeu. Se não houvesse, de um lado, um impulso psicológico inatural para crer, e do outro uma fé, igualmente inatural na ciência, não haveria qualquer razão para este conflito. Seria fácil, então, imaginar um estado em que o indivíduo simplesmente soubesse e ao mesmo tempo acreditasse naquilo que lhe parecesse provável por estas ou aquelas boas razões. A rigor não há, forçosamente, uma razão para o conflito entre essas duas coisas. Na verdade, ambas são necessárias, pois apenas o conhecimento assim como apenas a fé são sempre insuficientes para atender às necessidades religiosas do indivíduo.

Por isso, se se propuser algum método religioso como “científco”, pode-se estar certo de contar com o público no Ocidente. A ioga satisfaz a essa expectativa.

Silencio a importância que a ioga tem na Índia, pois não me sinto autorizado a emitir um juízo a respeito de algo que não conheço por experiência própria. Mas posso dizer alguma coisa sobre aquilo que ela significa para o Ocidente. A ausência de métodos entre nós raia pela anarquia psíquica. Por isso, qualquer prática religiosa ou filosófica significa uma espécie de disciplinamento psicológico e, consequentemente, também um método de higiene mental. As inúmeras formas de proceder da ioga, de natureza puramente corporal, significam também uma higiene fisiológica que, pelo fato de estar subordinada à ginástica costumeira ou aos exercícios de controle da respiração, é também de natureza filosófica, e não apenas mecânica e científica. De fato, nestes exercícios, ela liga o corpo à totalidade do espírito,se pode ver claramente nos exercícios do prânayâma, onde o prâna é ao mesmo tempo a respiração e a dinâmica universal do cosmos. Como a ação do indivíduo é ao mesmo tempo um acontecimento cósmico, o assenhoreamento do corpo (inervação) se associa ao assenhoreamento do espírito (da ideia universal), resultando daí uma totalidade viva que nenhuma técnica, por mais científica que seja, é capaz de produzir. 

(…) a ioga, como é fácil de imaginar, tornou-se a expressão mais adequada e a metodologia mais apropriada para fundir o corpo e o espírito em uma unidade que dificilmente se pode negar, gerando assim uma disposição psicológica que possibilita o surgimento de sentimentos e intuições que transcendem o plano da consciência. (…) Mas a própria crítica científica já tropeça contra o conceito de prâna e de purusha. Por isso a cisão operada no espírito ocidental torna impossível, de início, uma adequada realização das intenções da ioga. Ou esta é um assunto estritamente religioso, ou um training, como a não conheço mnemotécnica, a ginástica respiratória, a eurritmia etc. Mas não se encontra o mínimo vestígio daquela unidade e dessa totalidade que é própria da ioga. O hindu não consegue esquecer nem o corpo nem o espírito. O europeu, pelo contrário, esquece sempre um ou outro. Foi graças a esta capacidade que ele conquistou antecipadamente o mundo, isso não ocorrendo com o hindu. Este não somente conhece a sua natureza, como também sabe até onde ele próprio é essa natu- reza. O europeu, pelo contrário, tem uma ciência da natureza e sabe espantosamente muito pouco a respeito da natureza que está nele.

(…) O europeu, pelo contrário, pode fazer montanhas saltarem pelos ares, e a guerra mundial nos deu um antegosto amargo de tudo quanto ele é ainda capaz de fazer, quando seu intelecto alienado da natureza se liberta de todos os freios. (…) Sim, devo confessar, para vergonha minha, que devo os meus melhores conhecimentos (e entre eles há alguns que são inteiramente bons) à circunstância de, por assim dizer, ter feito sempre o contrário do que nos dizem todas as regras da ioga. (…) Sempre digo a quem posso: “Estude bem a ioga. Você aprenderá um número infinito de coisas com ela, mas não a utilize, pois nós, europeus, não somos feitos para usar sem mais nem menos tais métodos. Um guru hindu poderá explicar-lhe tudo muito claramente e você poderá executar, depois, o que ele lhe tiver ensinado, mas saberá você quem está se utilizando da ioga? Em outras palavras: Saberá você quem é você mesmo e de que modo é constituído?”

JUNG, C.G. Psicologia e Religião Oriental,OC. Editora Vozes. 2011. Pág. 68-72.

A Ioga e o ocidente

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