“Não pretendo pôr em dúvida a prática da meditação quando levada a efeito dentro de um quadro eclesiástico significativo. Fora deste contexto, porém, a coisa em geral não funciona ou conduz até mesmo a resultados deploráveis. Em outros termos: com o esclarecimento do inconsciente cai-se so bretudo na esfera do inconsciente pessoal e caótico, onde se acha tudo quanto se gostaria de esquecer ou não se desejaria confessar ou admitir, nem para si nem para os outros, em qualquer circunstância. Por isto crê-se que a melhor maneira de evitá-lo é não olhar para este canto escuro. Mas quem procede desta maneira não consegue evitar este canto e nunca chegará a perceber o menor traço daquilo que ioga promete. Só aquele que atravessar estas trevas poderá ter a esperança de avançar mais alguns passos. É por isto que, em princípio,sou contra a adoção das práticas da ioga por parte dos europeus, de forma indiscriminada e sem senso crítico, pois sei perfeitamente que o que se espera com isto é evitar seu canto escuro. Mas tal início é inteiramente desprovido de sentido e de valor.
(…)
É aqui que reside a razão mais profunda pela qual nós, homens do Ocidente, não desenvolvemos coisa alguma que possa se comparar com a ioga (exceção feita do emprego bastante limitado dos exe cícios inacianos). Temos um receio profundo de encarar de frente o lado abominável de nosso inconsciente pessoal. É por isso que o europeu prefere dizer aos outros de que modo devem proceder. Não entra em nossa cabeça que a correção do conjunto deve começar pelo próprio indivíduo, ou, mais exatamente, por mim mesmo.”
JUNG, C.G. Psicologia e Religião Oriental,OC. Editora Vozes. 2011. Pág.114-115.
Considerações em torno da psicologia da meditação oriental
