O que somos?

A imagem do homem que se acha no interior não deve ser confundida com as vestes que o envolve. Pensamos em nós mesmos como americanos, filhos do século XX, ocidentais, cristãos civilizados. Somos virtuosos ou pecadores. No entanto, essas designações não nos dizem o que é ser um homem; servem tão-somente para denotar os acidentes da geografia, da data de nascimento e da renda. Qual é o nosso núcleo? Qual o caráter básico do nosso ser?

Campbell, Joseph. O herói de mil faces. Pensamento, São Paulo, 2007, p. 370.

Ciclos

As lendas do Redentor descrevem o período de desolação como produto de uma falha moral por parte do homem (Adão no paraíso, Jemshid no trono). Não obstante, do ponto de vista do ciclo cosmogônico, uma alternância regular entre a conduta reta e a conduta errônea é característica do espetáculo do tempo. Tal como na história do universo, assim também na história das nações: a emanação leva a dissolução, a juventude a velhice, o nascimento a morte, a vitalidade criadora da forma Ao peso morto da inércia. A vida se manifesta precipitando formas, e depois fenece, deixando refugos atrás de si. A idade de ouro, reino do imperador humano, se alterna no pulsar de cada momento da vida, com a terra arrasada, reino do tirano. O Deus criador torna-se, no final, destruidor.

Campbell, Joseph. O herói de mil faces. Pensamento, São Paulo, 2007, p. 336.

A força do propósito

Diante de um homem que não se deixa desviar por sentimentos provocados pelas superfícies daquilo que ver, mas responde corajosamente a dinâmica de sua própria natureza – um homem que, como descreve Nietzsche, é “uma roda que gira por si mesma” – , as dificuldades se dissolvem e a estrada é imprevisível vai sendo formada a medida que ele caminha.

Campbell, Joseph. O herói de mil faces. Pensamento, São Paulo, 2007, pp. 330-331.

Mito x realidade

Se as façanhas de uma figura histórica real proclamam-no herói, os construtores de sua lenda inventarão para ela aventuras apropriadas nas profundezas. Estas serão apresentadas como jornadas a reinos miraculosos e deverão ser interpretados como símbolos, de um lado, de descidas no mar de escuridão da psique e, de outro, de domínios ou aspectos do destino do homem que se tornaram manifestos na vida dessas figuras.

Campbell, Joseph. O herói de mil faces. Pensamento, São Paulo, 2007, p. 312.

Concepção imaculada

(…) Huang-Ti, o Imperador Amarelo (2697-2597 a.C.), foi o terceiro dos Três Augustos. Sua mãe, concubina do príncipe da província de Chao-tien, O concebeu depois de ter contemplado, certa noite, uma tremeluzente luz dourada que se achava em torno da constelação da ursa maior.

Campbell, Joseph. O herói de mil faces. Pensamento, São Paulo, 2007, p. 308.

A constrição do campo da Consciência

Passamos, até o momento, por dois estágios: o primeiro lugar, passamos da semana ações imediatas do Criador Incriado para as personagens, fluidas e não obstante intemporais, da idade mitológica; Em segundo, passamos desses Criadores Criados para esfera da história humana. As emanações se condensaram; campo da consciência sofreu uma constrição. Onde antes eram visíveis corpos causais, ora entra em foco, na pequena pupila teimosa do olho humano, seus efeitos secundários.

Campbell, Joseph. O herói de mil faces. Pensamento, São Paulo, 2007, p. 306.

A Mulher Cósmica

Quando a figura de Herodes (o símbolo extremo do ego desgovernado e insistente) leva a humanidade ao nadir da degradação espiritual, as forças ocultas do ciclo começam a mover-se por si mesmas. Numa cidadezinha remota, nasce a donzela que se manterá imaculada dos erros comuns de sua geração: uma miniatura, no meio dos homens, da Mulher Cósmica que desposou o vento. Seu ventre, vazio como o abismo primordial, chama para si, graças a sua própria disponibilidade, o poder original que fertilizou vazio.

Campbell, Joseph. O herói de mil faces. Pensamento, São Paulo, 2007, p. 299.