Livro Tibetano da Grande Libertação

“Talvez não seja fora de propósito lembrar que o Oriente não produziu algo de equivalente à nossa psicologia, mas apenas uma metafísica. A filosofia crítica, que é a mãe da psicologia moderna, é estranha tanto ao Oriente quanto à Europa medieval. Por isso, o termo “espírito”, no sentido em que é empregado no Oriente, tem uma conotação metafísica. Nosso conceito ocidental de espírito perdeu este sentido depois da Idade Média, e a palavra agora designa uma “função psíquica”. (…)Não afirmamos que o espírito seja uma entidade metafísica ou que exista alguma ligação entre o espírito individual e um espírito universal (Universal Mind) hipotético. Por isso nossa psicologia é uma ciência dos fenômenos puros, sem implicações metafísicas de qualquer ordem. O desenvolvimento da filosofia ocidental nos dois últimos séculos teve como resultado o isolamento do espírito em sua própria esfera e a ruptura de sua unidade original com o universo.

(…)

Não temos meios intelectuais que nos permitam verificar se uma tal colocação é correta ou errônea. O que sabemos unicamente é que não há nem a certeza nem a possibilidade de demonstrar a validade de um postulado metafísico como, por exemplo, o de um espírito universal. Mesmo que a inteligência nos garanta a existência de um espírito universal, temos a convicção de que ela estabelece apenas uma afirmação. Não acreditamos que tal afirmação demonstre a existência de um espírito universal. Não há argumento contra essa consideração, mas não há também certeza em relação à validade de nossa conclusão.

Portanto, ao reconhecermos os limites de nosso espírito, estamos mostrando o nosso bom-senso. Admito que constitui um sacrifício despedir-se do mundo maravilhoso no qual vivem e se movimentam seres produzidos pelo nosso espírito. Trata-se do mundo do primitivo, onde até mesmo objetos sem vida são dotados de uma força vital, salvadora e mágica, mediante a qual estes objetos tornam-se parte integrante de nós mesmos. 

Apesar da inevitável crítica da teoria do conhecimento, permanecemos presos à concepção de que um órgão de fé capacita o mem a conhecer a Deus. Foi assim que o Ocidente desenvolveu a nova enfermidade de um conflito entre a ciência e a religião. A filosofia crítica da ciência tornou-se, por assim dizer, metafisicamente negativa ou, para dizer em outras palavras: materialista – partindo  justamente de um julgamento errôneo. Consideramos a matéria como uma realidade tangível e cognoscível. Entretanto, esta matéria é uma noção absolutamente metafísica, hipostasiada por cérebros não críticos. A matéria é uma hipótese. Quando se fala em “matéria”, está se criando, no fundo, um símbolo de algo que escapa ao conhecimento, e que tanto pode ser o espírito como qualquer outra coisa; pode ser inclusive o próprio Deus. (…) Jesus é, precisamente, o exemplo elucidativo de uma pessoa que pregava algo bem diverso da religião de seus pais. Mas não parece que a imitatio Christi comporte o sacrifício espiritual e psíquico que Ele próprio teve de oferecer no início de sua carreira e sem o qual jamais ter-se-ia tornado um redentor.

(…) A fé implica, potencialmente, num sacrificium intellectus (desde que o intelecto exista para ser sacrificado), mas nunca num sa- crifício dos sentimentos.

(…) Como já frisei anteriormente, a estrutura do espírito é responsável sobretudo por nossas afirmações a respeito de objetos metafísicos. Também ficamos sabendo que o intelecto não é um ens per se ou uma faculdade espiritual independente, mas uma função psíquica e, como tal, depende da psique como um todo. Um enunciado filosófico é o produto de uma determinada personalidade que vive em época bem determinada e num determinado lugar. (…) Sob este aspecto, o enunciado filosófico é antes de tudo subjetivo.

(…)

Depois que ficou demonstrado que as ideias universais hipostasiadas de outrora eram princípios espirituais, passamos a compreender melhor que toda a nossa experiência da chamada realidade é psíquica: cada pensamento, cada sentimento e cada ato de percepção são formados de imagens psíquicas, e o mundo só existe na medida em que formos capazes de produzir sua imagem. Recebemos de tal modo a impressão profunda de nosso cativeiro e de nosso confinamento em nossa psique, que nos sentimos propensos a admitir na psique a existência de coisas que desconhecemos e a que denominamos “o inconsciente”.

(…) Muitos pensadores científicos sacrificaram, inclusive, suas inclinações religiosas e filosóficas, receosos de cair num subjetivismo incontrolado. Para compensar a perda de um mundo que pulsava com o nosso sangue e respirava com o nosso sopro, alimentamos um entusiasmo pelos fatos concretos, por montanhas de fatos que o indivíduo jamais conseguirá abarcar com um só olhar. Afagamos a doce esperança de que este acúmulo aleatório venha um dia a formar um todo pleno de sentido. Mas ninguém tem certeza disto, porque nenhum cérebro humano é capaz de abranger a gigantesca soma final deste saber produzido em massa.

Para a psicologia ocidental, o espírito é uma função da psique. É a mentalidade de um indivíduo. Na esfera da filosofia ainda é possível encontrar um espírito universal e impessoal que parece representar um resquício da “alma” humana primitiva. Esta maneira de interpretar a concepção ocidental talvez pareça um tanto drástica, mas no meu entender não está muito distante da verdade. (…) No Oriente, o espírito é um princípio cósmico, a existência do em geral, ao passo que no Ocidente chegamos à conclusão de que o espírito é a condição essencial para o conhecimento e, por isso, também para a existência do mundo enquanto representação e ideia.(…) Entre nós, ocidentais, o homem é infinitamente pequeno, enquanto a graça de Deus é tudo. No Oriente, pelo contrário, o homem é deus e se salva por si próprio.”

JUNG, C.G.Psicologia e Religião Oriental,OC. Editora Vozes. 2011. Pág. 11-16.

Comentário psicológico sobre o livro Tibetano da Grande Libertação

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