“O método deve ser manipulado com certa inteligência. A estupidez, como se sabe, não é uma arte.
(…)
Se alguma coisa no método dá certo, então é forçoso admitir que existe um paralelismo insólito entre o evento psíquico e o evento físico. Esta conclusão é shocking [chocante] mas não de todo nova, pois constitui a única hipótese plausível da Astrologia e, de modo particular, da moderna horoscopia, embora esta última esteja voltada mais para o tempo em si mesmo do que para a posição momentânea dos astros, pois o tempo é também determinado e medido com instrumentos da Física.
*I Ging
(…) Assistimos a curas inesperadas obtidas com terapias duvidosas e a fracassos inesperados mediante métodos pretensamente seguros. Quem se dedica à pesquisa do inconsciente depara com coisas insólitas, que um racionalista evita com horror, afirmando depois nada ter visto. O lado irracional da vida ensinou-me a não rejeitar o que quer que seja, mesmo que isto vá de encontro a todas as nossas teorias (aliás de vida tão curta) ou pareça, por outro lado, momentaneamente inexplicável. Isto nos deixa inquietos: não temos plena certeza de que a bússola esteja apontando na direção verdadeira; mas não é na segurança, na certeza e na tranquilidade que se fazem descobertas.(…) Só os indivíduos estúpidos e inferiores acham que o autoconhecimento é prejudicial. Ninguém os abalará nesta convicção.
(…)
Mas uma dificuldade diferente e mais decisiva consiste na ignorância generalizada da própria sombra, isto é, do aspecto inferior da própria personalidade, que é constituída, em grande parte, de complexos reprimidos. Acontece muitas vezes que a personalidade consciente se volta com todas as suas forças contra tais conteúdos, descarregando-os sob a forma de projeções sobre os seus semelhantes. Só vemos perfeitamente o argueiro que está no olho do nosso irmão e não enxergamos a trave que está no nosso próprio olho.”
JUNG, C.G. Psicologia e Religião Oriental,OC. Editora Vozes. 2011. Pág.135-137.
Prefácio ao I Ging
