Psicologia da meditação oriental

“Não são espectros noturnos com que nos defrontamos nos espetáculos do Kathakáli dos templos, e sim figuras de profundo e tenso dinamismo, formas elaboradas segundo rigorosas leis, até nos mínimos detalhes, ou organicamente desenvolvidas. Não são fantasmas ou meras cópias de realidades únicas e irrepetíveis, mas sim realidades que ainda não tiveram existência, realidades potenciais que podem transpor a cada momento o limiar do existir.

Quem se entrega plenamente a tais impressões não demorará perceber que estas formas nada têm de onírico para o hindu, mas são para ele, do mesmo modo que tocam algo, dentro de nós, com uma intensidade quase assustadora, algo para o qual não temos uma linguagem adequada. 

(…) A realidade, como se vê pela palavra alemã (Wirklichkeit), é algo que atua realmente (wirkt). Para nós, o conceito real por excelência se acha ligado ao mundo dos fenômenos, do que aparece exteriormente. Para o hindu, porém, este conceito está ligado à alma. Para ele, o mundo é aparência, e sua realidade se aproxima daquilo que nós chamaríamos de sonho.

Este estranho contraste com o Ocidente se expressa, sobretudo. na prática religiosa. Nós falamos em edificação e elevação religiosas. Deus é o Senhor de todas as coisas. Temos uma religião do amor ao próximo. Em nossas igrejas, que se lançam às alturas, existe um altar mor, situado em lugar elevado (Hochaltar), enquanto a India fala de dhyâna (concentração), meditação e imersão; a divindade se acha no interior de todas as coisas. O indivíduo se volta do exterior para o interior. (…)A prática de nossa religião consiste na adoração, na veneração e no louvor. Para o hindu, pelo contrário, a prática mais importante é a ioga, a imersão em um estado que chamaríamos de inconsciente, mas ele considera como o mais alto grau de consciência.

Que é, então, a ioga? Literalmente, ioga significa “imposição de um jugo”, isto é, disciplinamento das forças instintivas da alma, designadas, em sânscrito, pelo termo Kleças. A imposição do jugo tem por escopo domar aquelas forças que mantêm o homem preso ao mundo. (…) Esse sûtra[Tratado].

(…)

“Tu e todos os outros seres (isto é, os que têm a mesma intenção) deveis procurar a percepção do reino terreno, concentrando os pensamentos. Talvez me perguntes como se pode conseguir esta percepção. Vou explicar-te a maneira. Todos os seres, desde que não sejam cegos de nascença, têm o sentido da visão e podem ver o sol poente. Deves colocar-te na posição correta e dirigir o olhar para o poente. Prepara então teus pensamentos para a meditação, concentrando-te sobre o sol. Fixa tua consciência firmemente no sol, de modo a teres uma percepção dele, sem a mínima perturbação, concentrada exclusivamente nele. Olha firmemente para ele, no momento em que vai pôr-se, quando parece um tambor dependurado. Depois de teres visto o sol desta maneira, conserva esta imagem fixa e clara, estejas ou não de olhos fechados. Esta é a chamada percepção do sol e é a pri- meira meditação”.

*Início da sequencia Alquímica

*Fixar o interior numa imagem – exterior e fixá-la dentro de so.

“Em seguida procurarás ter a percepção da água. Fixa o teu olhar na água pura e clara e mantém esse olhar claro e imutável dentro de ti. Não permitas que teus pensamentos se dissipem e se percam”

“Depois de teres visto a água desta maneira, procurarás ter a percepção do gelo. Vêlo-ás luminoso e transparente. Também imaginarás a aparição do lápis-lazúli (lazurita). Depois que o conseguires, rás o chão como se fosse substituído de lápis-lazúli transparente e luminoso tanto por dentro como por fora. Debaixo deste chão de làpis-lazúli verás o estandarte de ouro ornado de sete joias, isto é, de diamantes e de outras (pedras preciosas) que sustentam o solo. Este estandarte se estende nas oito direções da rosa-dos-ventos, ocupando, assim, inteiramente os oito ângulos dos alicerces.

*Sequencia Alquimica

(…)

Quando tiveres realizado esta percepção, meditarás sucessiva- mente sobre cada uma de suas partes constitutivas. E farás com que as imagens apareçam o mais claramente possível, de modo que nunca se dissipem nem se percam, estejas ou não de olhos abertos.

(…)

Samâdhi é a “absorção total”, isto é, o estado em que todas as conexões cósmicas foram absorvidas no interior do indivíduo. O samâdhi é a oitava das oito sendas.”

(…) Por fim, tua consciência se transformará em Buda, ou melhor, tua consciência será o próprio Buda. O oceano do conhecimento verdadeiro e universal de todos os budas tem sua origem na nossa própria consciência e no nosso próprio pensamento.”

JUNG, C.G. Psicologia e Religião Oriental,OC. Editora Vozes. 2011. Pág.101-105.

Considerações em torno da psicologia da meditação oriental

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