O Despertar do Eu

“Como manifestação preliminar dos poderes que estão entrando em jogo, o sapo, que surgiu como por milagre, pode ser considerado o “arauto”; a crise do seu aparecimento é o “chamado da aventura”. A mensagem do arauto pode ser viver, como ocorre no exemplo em questão, ou, num momento posterior da biografia, morrer. Ele pode anunciar o chamado para algum grande empreendimento histórico, assim como pode marcar a alvorada da iluminação religiosa. Conforme o entende o místico, ele marca aquilo a que se deu o nome de “o despertar do eu”.

Campbell, Joseph. O herói de mil faces. Pensamento, São Paulo, 2007, p. 60.

Mente de Pergunta Aberta

Quando o Buda desistiu de sua busca por respostas, ele se deparou com uma alternativa que não sabia existir – a mente de uma pergunta aberta. O Buda descobriu que, quando se fazia uma pergunta, sua mente estava ativa, mas ao mesmo tempo aberta. O processo de questionar a si mesmo o protegeu tanto do extremo da ignorância quanto o da certeza falsa, abrindo espaço para a expressão da inteligência criativa da mente. Ele encontrou uma maneira de estar dentro da mente de uma pergunta aberta, que era profundamente clara, ativa e cheia de aventura, e chamou-a de Caminho do Meio.”

MATTIS-NAMGYEL, Elizabeth. O Poder de uma Pergunta Aberta: o caminho do Buda para a liberdade. Teresópolis, RJ: Lúcida Letra,  2018. p. 45.

Perguntas Sem Respostas

“Na tradição do budismo Zen, um koan é uma história, afirmação, questão ou diálogo paradoxais que são inacessíveis ao pensamento convencional. O praticante utiliza o koan como um ponto de partida para a investigação meditativa. Focando em uma única questão, ele(a) busca um modo de ser que transcenda respostas ou soluções ordinárias. Essa transcendência é semelhante à mente de uma pergunta aberta: uma mente que se envolve, mas que não busca segurança ou conclusões.”

MATTIS-NAMGYEL, Elizabeth. O Poder de uma Pergunta Aberta: o caminho do Buda para a liberdade. Teresópolis, RJ: Lúcida Letra,  2018. p. 35.

Nada é Certo

O fato de que nada é certo e, portanto, não há nada em que possamos nos agarrar pode provocar medo e depressão. Mas pode suscitar também o desejo de ser surpreendido, a curiosidade e a liberdade. De fato, alguns de nossos melhores momentos se dão quando ainda não decidimos o que acontecerá a seguir: andando a cavalo, o vento em nossos cabelos; em uma bicicleta, nada além de uma estrada aberta à frente; viajando em terra estrangeira onde nunca estivemos antes. Tinta e uma tela aberta. (…)”

MATTIS-NAMGYEL, Elizabeth. O Poder de uma Pergunta Aberta: o caminho do Buda para a liberdade. Teresópolis, RJ: Lúcida Letra,  2018. p. 33.

O Momento Decisivo

A maneira como respondemos à corrente de experiências momentâneas a que chamamos de “nossa vida” determina nosso movimento – seja ele em direção à nossa busca habitual por segurança ou em direção ao despertar. A tradição budista tem muitas formas de explicar nossas tendências a recuar diante das experiências, mas todas essas explicações têm algo em comum: dor e sofrimento se multiplicam quando não somos capazes de nos manter presentes com aquilo que aparece diante de nós. Quando nos sentimos soterrados pela farta energia de uma experiência, colocamos uma tampa sobre ela, tentamos destruí-la, embelezá-la ou reagir a ela de uma maneira ou outra.”

MATTIS-NAMGYEL, Elizabeth. O Poder de uma Pergunta Aberta: o caminho do Buda para a liberdade. Teresópolis, RJ: Lúcida Letra,  2018. p.30-31.

Não Seja Tão Previsível

“O Lojong” budista, ou a tradição de treinamento da mente, diz: “Não seja tão previsível”. Como praticantes espirituais, precisamos ter alguma curiosidade em relação ao desconhecido. Quando territórios inexplorados nos assustam, poderíamos nos perguntar: “Onde está meu senso de aventura?”. É importante ter um senso de aventura na vida, porque nossa situação atual não é diferente daquela em que se escala uma rocha.”

MATTIS-NAMGYEL, Elizabeth. O Poder de uma Pergunta Aberta: o caminho do Buda para a liberdade. Teresópolis, RJ: Lúcida Letra,  2018. p. 30.

Limiar de Retorno

“As aventuras do herói se passam fora da terra nossa conhecida, na região das trevas; ali ele completa sua jornada, ou apenas se perde para nós, aprisionado ou em perigo; e seu retorno é descrito como uma volta do além. Não obstante – e temos diante de nós uma grande chave da compreensão do mito e do símbolo – os dois reinos são, na realidade, um só e o único reino. O Reino dos deuses é uma dimensão esquecida do mundo que conhecemos. E a exploração dessa dimensão, voluntária ou relutante, resume todo o sentido da façanha do herói. Os valores e distinções que parecem importantes na vida normal desaparecem com a terrificante assimilação do eu naquilo que antes não passava de alteridade.”

Campbell, Joseph. O herói de mil faces. Pensamento, São Paulo, 2007, p. 213.

Chamado Para a Aventura

“Esse primeiro estágio da jornada mitológica – que denominamos aqui “o chamado da aventura” – significa que o destino convocou o herói e transferiu-lhe o centro de gravidade do seio da sociedade para uma região desconhecida”.

Campbell, Joseph. O herói de mil faces. Pensamento, São Paulo, 2007, p. 66.

Unidade

“Os dois, o herói e o seu deus último, aquele que busca e aquele que é encontrado – são entendidos, por conseguinte, como a parte externa e interna de um único mistério auto refletido, mistério idêntico ao do mundo manifesto. A grande façanha do herói supremo é alcançar o conhecimento dessa unidade na multiplicidade e, em seguida, torná-la conhecida”.

O efeito da aventura bem-sucedida do herói é a abertura e a liberação do fluxo da vida no corpo do mundo”.

Campbell, Joseph. O herói de mil faces. Pensamento, São Paulo, 2007, p. 43.

A Jornada do Herói (etapas)

I grande estágio
Separação ou Partida

    1. O chamado da aventura, ou os indícios da vocação do herói;
    2. A recusa do chamado, ou a temeridade de se fugir de Deus;
    3. O auxílio sobrenatural, a assistência insuspeitada de vem ao encontro daquele que leva a efeito sua aventura adequada;
    4. A passagem pelo primeiro limiar;
    5. O ventre da baleia, ou a passagem para o reino da noite.

II grande estágio
Provas e Vitórias da Iniciação

    1. O caminho de provas, ou o aspecto perigoso dos deuses;
    2. O encontro com a deusa (Magna Mater), ou a benção da infância recuperada;
    3. A mulher como tentação, a realização e agonia do destino de Édipo;
    4. A sintonia com o pai;
    5. A apoteose;
    6. A bênção última;

III grande estágio
Retorno e reintegração à Sociedade

    1. A recusa do retorno, ou o mundo negado;
    2. A fuga mágica, ou a fuga de Prometeu;
    3. O resgate com ajuda externa;
    4. A passagem pelo limiar do retorno, ou o retorno ao mundo cotidiano;
    5. Senhor dos dois mundos;
    6. Liberdade para viver, a natureza e função da benção última.

Campbell, Joseph. O herói de mil faces. Pensamento, São Paulo, 2007, pp. 40-41