A repetição é a característica essencial do ritual

“A percepção serial é extensiva, enquanto a percepção simbólica é intensiva. Dada sua extensão, sua atenção é rasa. A intensidade dá lugar hoje, em toda parte, à extensão. A comunicação digital é uma comunicação extensiva. Ela não produz relações, mas conexões.

O regime neoliberal acelera a percepção serial, aumenta o hábito serial. Elimina deliberadamente a duração para obter mais consumo. O update constante que compreende nesse ínterim todos os âmbitos da vida, não permite a duração, um término. A coação permanente da produção leva a um desencasamento. A vida se torna, com isso, mais contingente, mais efêmera, e instável. Habitar, contudo, requer duração.
O transtorno de déficit de atenção é resultado de um recrudescimento patológico da experiência serial. A experiência nunca repousa. Desaprendeu a permanecer. A atenção profunda como técnica cultural se forma justamente pelas práticas rituais e religiosas. Religião não provém por acaso de relegere, prestar atenção. Toda práxis religiosa é um exercício de atenção. O templo é um lugar de atenção profunda. A atenção é, segundo Malebranche, a reza natural da alma. Hoje, a alma não reza. Ela se produz continuamente.
Memorizar se chama em francês apprendre par cœur. Apenas a repetição alcança manifestamente o coração.
A repetição é a característica essencial do ritual. Ela se distingue da rotina pela sua capacidade de produzir uma intensidade.”

HAN, Byung-Chul.O desaparecimento dos rituais: Uma topologia do presente. Ed. Vozes, 2021, Local 122-138.

Coação de produção

Relações humanas

“A comunicação digital prejudica consideravelmente as relações humanas. Hoje, estamos conectados em todos os lugares, mas sem estarmos vinculados uns aos outros. A comunicação digital é extensiva. Falta-lhe intensidade. A conexão em rede não é igual ao relacionamento.

Hoje, Você é substituído por Isso em todos os lugares. A comunicação digital elimina a contraparte pessoal, a feição, o olhar, a presença corporal. Dessa forma, acelera o desaparecimento do outro. Os fantasmas habitam o inferno do igual.

Na era do distanciamento, a relação dá lugar ao contato sem distância.”

HAN, Byung-Chul. Não coisas: Reviravoltas do mundo da vida. Ed. Vozes, 2021, Local 901-910.

A parte de trás das coisas