Filho Unigênito

“Os escritos de muitos cristãos gnósticos dos dois primeiros séculos, incluindo Basílides, Teódoto, Valentino e Ptolomeu, expressam de maneira similar uma com preensão do “Filho unigênito” como um princípio cósmico na criação – o divino Nous (palavra grega para inteligência, mente ou pensamento) – e não a pessoa de Jesus. Cle mente de Alexandria, um dos célebres “Pais da Igreja”, cita, como referência a partir dos escritos de Teódoto, que “o Filho unigênito é Nous” (Excerpta ex Theodoto 6:3). Em Gnosis: A Selection of Gnostic Texts (Oxford, Inglaterra: Clarendon Press, 1972), o estudioso alemão Werner Foerster cita Irineu: “Basílides apresenta Nous originan do-se, no princípio, do Pai sem origem”. Valentino, professor muito respeitado pela congregação cristã de Roma em torno de 140 d.C., tinha pontos de vista semelhantes, de acordo com Foerster, acreditando que, “no prólogo do Evangelho de João, o Uni gênito’ toma o lugar de Nous”.

No Concílio de Niceia (325 d.C.), entretanto, e no posterior Concílio de Constan tinopla (381 d.C.), a Igreja proclamou como doutrina oficial que o próprio Jesus era, nas palavras do Credo Niceno, “o Filho unigênito de Deus, gerado do Pai antes de todos os séculos; Luz da Luz, Deus verdadeiro de Deus verdadeiro; gerado, não feito; homoousios (“consubstancial’) com o Pai”. “Depois do Concílio de Constantinopla”, escreve Timothy D. Barnes em Athanasius and Constantius: Theology and Politics in the Constantinian Empire (Harward University Press, 1993), “o imperador sacramentou suas decisões em leis e sujeitou a penalidades legais os cristãos que não aceitassem o Credo de Niceia e seu lema homoousios. Conforme reconhecido já há muito tempo, esses acontecimentos marcaram uma transição entre duas épocas distintas na história da Igreja Cristã e do Império Romano.” A partir de então, explica Richard E. Rubens tein em When Jesus Became God: The Struggle to Define Christianity During the Last Days of Rome (Nova York: Harcourt, 1999), o ensinamento oficial da Igreja passou a ser que a não aceitação de Jesus como Deus significava a rejeição do próprio Deus. Ao longo dos séculos, esse ponto de vista trouxe enormes – e frequentemente trágicas – implicações no relacionamento dos cristãos com os judeus (e, mais tarde, com os muçulmanos que consideravam Jesus como um profeta divino, mas não como parte da própria Divindade) e também com os povos não cristãos de terras posteriormente conquistadas e colonizadas pelas nações europeias. (Nota da Editora)”

YOGANANDA, Paramahansa. A Segunda Vinda de Cristo, A Ressurreição do Cristo Interior. Comentário Revelador dos Ensinamentos Originais de Jesus. Vol. I. Editora Self, 2017, pág. 297-298.

Capítulo 13: O segundo nascimento do homem: o nascimento no Espírito – Diálogo com Nicodemos, parte I.

Distinção Entre Fatos Bíblicos e Ficção

O tempo trabalha na mente dos homens, de modo especial daqueles que estão distantes da época dos acontecimentos, para acrescer ou minorar os atributos de personagens importantes e os eventos associados com suas vidas. Se estes tiverem conotação religiosa, transformaçõs de fatos em lendas parecem ocorrer de forma ainda mais temerária. (…) a Índia recobriu sua riqueza espiritual mais sagrada – e os agentes divinos deste tesouro – com um simbolismo e a profundidade de uma mitologia rica de significados que preservaram os princípios e os preceitos de suas escrituras ao longo de gerações de dominacão e influência estrangeira. Talvez as vozes da Antiguidade não devessem ser inteiramente silenciadas ou descartadas precipitadamente de nossa consideração mental. Todavia, um atento discernimento está por certo justificado.

Essa distinção entre fato e ficção, de modo a manter a integridade da Igreja e da doutrina cristãs, era claramente a intenção dos patriarcas da Igreja. Os 27 livros do Novo Testamento que hoje constituem o relato bíblico da vida e dos ensinamentos de Jesus foram compilados, nos primórdios da Igreja, de uma coleção muito mais ampla de textos. 

(…)

É difícil deixar de concordar em alguma medida com o comentarista John Jortin (1698-1770; arquidiácono de londres), que, segundo nos diz Hone, ao analisar a autoridade desses Concílios Gerais, concluiu ironicamente: “O Concílio dos Apóstolos em Jerusalém [Atos I] foi o primeiro e o último de que se pode afirmar ter sido presidido pelo Espírito Santo”

(…)

O surgimento da compilação específica de livros hoje conhecida como o Novo Testamento ocorreu no ano 367 d.C.

Durante séculos, a existência de muitos dos textos que foram suprimidos e destruídos era praticamente desconhecida – tanto para os eruditos quanto para os que professavam a fé. Alguns deles vieram à tona na famosa descoberta em Nag Hammadi, Egito, em 1945. Devido às descobertas de Nag Hammadi, escreve Elaine Pagels Ph.D., professora de religião na Universidade de Princeton e renomada estudiosa do Cristianismo original, “nós começamos a ver que o que chamamos de cristianismo – e o que identificamos como sendo a tradição cristã – na realidade representa somente uma pequena seleção de fontes específicas, escolhidas dentre dezenas de outras. (…)

Por volta do ano 200 (…) o cristianismo se tornara uma instituição encabeçada por uma hierarquia em três níveis constituída de bispos, padres e diáconos, que se viam como os guardiães da única ‘fé verdadeira’. (…) Os esforços da maioria para destruir todos os vestigios de ‘blasfemia’ herética tiveram tanto êxito que, até a descoberta em Nag Hammadi, praticamente todas as informações sobre formas alternativas de cristianismo dos primeiros séculos vinham dos violentos ataques ortodoxos contra elas. (…) Se tivessem sido encontrados mil anos antes, [esses] textos quase certamente teriam sido queimados como heréticos. (…) Hoje nós os lemos com olhos diferentes, não como mera ‘loucura e blasfemia’, mas como os cristãos dos primeiros séculos devem tê-los lido – como uma vigorosaalternativa para o que conhecemos como a tradição ortodoxa cristã.” – Elaine Pagels, The Gnostic Gospels (Nova York: Vintage Books, 1981) [Os evangelbos gnósticos (Ed. Objetiva)]. (Nota da Editora).”

YOGANANDA, Paramahansa. A Segunda Vinda de Cristo, A Ressurreição do Cristo Interior. Comentário Revelador dos Ensinamentos Originais de Jesus. Vol. I. Editora Self, 2017, pág. 75-77.

Capítulo 4: A infância e a juventude de Jesus.

Registros Guardados Sem Influências

“Que fique bem entendido, portanto, que os fatos relativos à infância e juventude de Jesus constam dos registros guardados e mantidos até hoje por grupos de pessoas e por organizações que não se deixaram influenciar pelas imposições dos concílios ou ditames dos sínodos, e que não encontram nesses fatos qualquer coisa que possa diminuir a grandeza e suprema maestria de Jesus, o Cristo.”

LEWIS, H. Spencer. A Vida Mística de Jesus. Curitiba, PR: AMORC, 2001, p. 130.