Estratégia de dominação

“A estratégia de dominação consiste, hoje, em privatizar o sofrimento, a angústia, e, assim, ocultar sua socialidade; ou seja, impedir a sua socialização, a sua politização. A politização significa a tradução do privado no público. Hoje, se dissolve, antes, o público no privado. A esfera pública se decompõe em espaços privados.

A internet não se manifesta hoje como um espaço do agir comum e comunicativo. Antes, ela se degrada em espaços de exposição do eu, nos quais se promove, antes de tudo, a si mesmo. A internet não é, hoje, senão a câmara de ressonância do si isolado. Nenhuma propaganda escuta.”

HAN, Byung-Chul.A expulsão do outro: Sociedade, percepção e comunicação hoje. Ed. Vozes, 2022, Local 1249-1254.

Escutar

Dominação neoliberal

“O trabalhador se torna tanto mais pobre quanto mais riqueza ele produz. Os seus produtos são arrancados dele. O fazer do trabalho causa a sua desrealização: “A realização do trabalho aparece tanto como desrealização, que o trabalhador é desrealizado até o nível da inanição”[46]. Quanto mais ele se desgasta, mais ele se encontra sob o domínio do outro explorador. Essa relação de dominação que leva à alienação, à desrealização, é comparada por Marx com a religião: “Quanto mais o ser humano põe em Deus, menos ele mantém em si mesmo. O trabalhador põe sua vida no objeto; mas, agora, ela não pertence mais a ele, mas ao objeto. Quanto maior, portanto, essa atividade, tanto mais desprovido de objeto é o trabalhador. O que o produto do seu trabalho é, ele não é. Quanto maior, portanto, é esse produto, menor é ele mesmo”. Por causa da alienação na relação de trabalho não é possível que o trabalhador se realize. O seu trabalho é um desrealizar-se contínuo. Vivemos, hoje, em uma era pós-marxista. No regime neoliberal, a exploração não ocorre mais como alienação e autodesrealização, mas como liberdade, como autorrealização e auto-otimização. Aqui, não há mais o outro como explorador, que me obriga ao trabalho e me aliena de mim mesmo. Antes, eu exploro voluntariamente a mim mesmo, crente de que, assim, me realizo. Essa é a lógica pérfida do neoliberalismo.

Assim, também o primeiro estágio do burnout é a euforia. Lanço-me euforicamente no trabalho, até que eu, por fim, desmorone. Eu me realizo até a morte, me otimizo até a morte. A dominação neoliberal se esconde por trás da liberdade ilusória. A dominação se consuma no momento em que ela coincide com a liberdade. Essa liberdade [apenas] sentida é fatal, na medida em que ela não permite nenhuma resistência, nenhuma revolução. Contra o que deve se dirigir a resistência? Não há, afinal, mais nenhum outro ponto do qual parta uma repressão. O truísmo de Jenny Holzer “Protect me from what I want” [proteja-me do que eu quero] expressa certeiramente essa mudança de paradigma.”

HAN, Byung-Chul.A expulsão do outro: Sociedade, percepção e comunicação hoje. Ed. Vozes, 2022, Local 619-631.

Alienação

Transformação das ideias em dominação

“A grande questão, porém, é se o poder emancipatório dessas idéias pode sobreviver a seu sucesso mundano. A resposta de Adorno a tal questão recende a melancolia: “A história das antigas religiões e escolas, como a dos partidos e revoluções modernas, nos ensina que o preço da sobrevivência é o envolvimento prático, a transformação das idéias em dominação”.

BAUMAN, Zygmunt.Modernidade líquida, Ed. Zahar, Local: 811.

Capítulo 1 | Emancipação

A teoria crítica revisitada

Vigilância do Grande Irmão

“A tela de vigilância do Grande Irmão é substituída, na telecracia, pela tela de televisão. As pessoas não são vigiadas, mas entretidas. Não são submetidas, mas tornadas viciadas. A polícia do pensamento e o ministério da verdade são superficiais. Dor e tortura não são usadas como meios de dominação, mas o entretenimento e divertimento.”

HAN, Byung-Chul. Infocracia: Digitalização e a crise da democracia. Ed. Vozes, 2022, Local 271.

Infocracia