Época sem festa é uma época sem comunidade

“A época sem festa é uma época sem comunidade. Hoje se evoca em todo lugar a Community, mas esta é a comunidade em forma de mercadoria. Ela não deixa surgir nenhum nós. O consumo desenfreado isola e separa os humanos. Consumidores são solitários. Também a comunicação se mostra como comunicação sem comunidade. Mídias sociais aceleram a desconstrução da comunidade. O capitalismo transforma o próprio tempo em uma mercadoria. Desse modo, ele perde toda festividade. Acerca da comercialização do tempo, Debord observa que “a realidade do tempo foi substituída pela propaganda do tempo”.

HAN, Byung-Chul. Vita Contemplativa, ou sobre a inatividade. Ed. Vozes, 2023, Local 88

Considerações sobre a inatividade

É possível haver festa?

“E hoje, é ainda possível haver festa? É claro que existem festas hoje em dia. Não são, porém, festas no sentido verdadeiro. Tanto a palavra festa quanto festival remontam à palavra latina festus. Festus significa uma referência aos dias definidos para ações religiosas. As festas ou festivais de hoje são eventos ou espetáculos. A temporalidade do evento é contrária à temporalidade da festa. O evento remonta à palavra latina eventus. Eventus significa: vir a acontecer de repente, acontecer. Sua temporalidade é a eventualidade. A eventualidade pode ser qualquer coisa, menos necessidade de tempo celebrativo. É a temporalidade da própria sociedade atual que perde contato com tudo que é vinculativo, com tudo que estabelece laços.”

HAN, Byung-Chul. Sociedade do Cansaço. Ed. Vozes, 2022, Local 938.

Anexos: Tempo de celebração-a festa numa época sem celebração

Festa e celebração

“Tanto a festa quanto a celebração tem uma origem religiosa. A palavra latina feriae significa as ações próprias do culto religioso de um determinado tempo. Fanum significa “sagrado, um lugar consagrado a uma deidade”. A festa começa onde cessa o tempo cotidiano pro-fano (literalmente: o que se localiza antes das cercanias sagradas). Então se é consagrado no tempo celebrativo da festa.”

HAN, Byung-Chul. Sociedade do Cansaço. Ed. Vozes, 2022, Local 896.

Anexos: Tempo de celebração-a festa numa época sem celebração

Brinquedo de Deus

“No livro de Platão chamado Nomoi (As leis), diz-se o seguinte: “Mas o homem foi feito para ser um brinquedo de Deus, e isso é realmente o melhor que há nele. Assim, pois, cada um, tanto um varão quanto uma mulher, seguindo essa instrução e jogando os mais belos jogos deve viver a vida”. “Deve-se viver brincando e jogando […], fazendo oferendas, cantando e dançando, para poder despertar a graça dos deuses […]”. Rituais de sacrifícios ou de oferendas são originalmente refeições comuns com os deuses. Festas e rituais abrem um acesso ao divino.

(…)

Deveríamos reconhecer que hoje perdemos aquela festividade, aquele tempo de celebração na medida em que absolutizamos trabalho, desempenho e produção.”

HAN, Byung-Chul. Sociedade do Cansaço. Ed. Vozes, 2022, Local 915.

Anexos: Tempo de celebração-a festa numa época sem celebração