Limiar de retorno

As aventuras do herói se passa fora da terra nossa conhecida, na região das trevas; ali ele completa sua jornada, ou apenas se perde para nós, aprisionado ou em perigo; e seu retorno é descrito como uma volta do além. Não obstante – e temos diante de nós uma grande chave da compreensão do mito e do símbolo – os dois reinos são, na realidade, um só e o único reino. O Reino dos deuses é uma dimensão esquecida do mundo que conhecemos. E a exploração dessa dimensão, voluntária ou relutante, resume todo o sentido da façanha do herói. Os valores e distinções que parecem importantes na vida normal desaparecem com a terrificante assimilação do eu naquilo que antes não passava de alteridade.

Campbell, Joseph. O herói de mil faces. Pensamento, São Paulo, 2007, p. 213.

Recusa do retorno

Terminada a busca do herói, por meio da penetração da ponte, ou por intermédio da graça de alguma personificação masculina ou feminina, humana ou animal, o aventureiro deve ainda retornar com o seu troféu transmutador da vida. O círculo completo, a norma do monomito, Requer que o herói iniciar agora o trabalho de trazer o símbolos da sabedoria, o Velocino de Ouro, ou a princesa adormecida, de volta o Reino humano, onde a benção alcançada pode servir a renovação da comunidade, da nação, do planeta ou dos 10.000 mundos.

Mas essa responsabilidade tem sido objeto de frequente recusa.

Campbell, Joseph. O herói de mil faces. Pensamento, São Paulo, 2007, p. 195.

Encontro com o Mentor

Para aqueles que não recusam o chamado, o primeiro encontro da jornada do herói se dá com uma figura protetora (que, com frequência, é uma anciã ou um ancião), que fornece ao aventureiro amuletos que o protejam contra as forças titânicas com que ele está prestes a deparar-se.

(…) Essa figura representa o poder benigno e protetor do destino. A fantasia é uma garantia –  uma promessa de que a paz do Paraíso, conhecida pela primeira vez no interior do útero materno, não se perderá, de que ela suporta o presente e está no futuro e no passado…

(…) Tendo respondido ao seu próprio chamado, e prosseguido corajosamente conforme se desenrolam as consequências, o herói encontra todas as forças do inconsciente do seu lado.

Campbell, Joseph. O herói de mil faces. Pensamento, São Paulo, 2007, pp. 74.

A jornada do herói (etapas)

I grande estágio
Separação ou Partida

    1. O chamado da aventura, ou os indícios da vocação do herói
    2. A recusa do chamado, ou a temeridade de se fugir de Deus
    3. O auxílio sobrenatural, a assistência insuspeitada de vem ao encontro daquele que leva a efeito sua aventura adequada
    4. A passagem pelo primeiro limiar
    5. O ventre da baleia, ou a passagem para o reino da noite

II grande estágio
Provas e Vitórias da Iniciação

    1. O caminho das provas, ou o aspecto perigoso dos deuses
    2. O encontro com a deusa (Magna Mater), ou a benção da infância recuperada
    3. A mulher como tentação, a realização e agonia do destino de Édipo
    4. A sintonia com o pai
    5. A apoteose
    6. A bênção última

III grande estágio
Retorno e reintegração à Sociedade

    1. A recusa do retorno, ou o mundo negado
    2. A fuga mágica, ou a fuga de Prometeu
    3. O resgate com ajuda externa
    4. A passagem pelo limiar do retorno, ou o retorno ao mundo cotidiano
    5. Senhor dos dois mundos
    6. Liberdade para viver, a natureza e função da benção última

Campbell, Joseph. O herói de mil faces. Pensamento, São Paulo, 2007, pp. 40-41

Separação, iniciação e retorno

O percurso padrão da aventura mitológica do herói é uma magnificação da fórmula representada nos rituais de passagem: separação-iniciação-retorno – que podem ser considerados a unidade nuclear do monomito.

Um  herói vindo do mundo cotidiano se aventura numa região de prodígios sobrenaturais; ali encontra fabulosas forças e obtém uma vitória decisiva; o herói retorna de sua misteriosa aventura com o poder de trazer benefícios aos seus semelhantes.

Campbell, Joseph. O herói de mil faces. Pensamento, São Paulo, 2007, p. 36.