Noite Escura da contemplação

“Deriva-se esta inteligência mística ao entendimento, enquanto a vontade permanece na secura, a saber, sem união atual de amor; e causa uma paz e simplicidade tão fina e deleitosa à mesma alma que não é possível expressar,

Tal é a condição do amor em sua força e veemência: tudo lhe parece possível, e imagina que todos andam ocupados naquilo mesmo que o ocupa. Não admite que haja outra coisa em que pessoa alguma possa cuidar, ou procurar, senão o objeto a quem ele ama e procura.

(…) o amor já lhe vai dando forças para amar deveras; ora, é próprio do amor tender à união, à junção, à igualdade e à assimilação ao objeto amado, para aperfeiçoar-se no bem do mesmo amor. Por consequência, não tendo ainda a alma chegado à perfeição do amor, pois não a atingiu a união, sente fome e sede do que lhe falta, isto é, da união; e essa fome e sede, junto com as forças que o amor pôs na vontade, apaixonando-a, tornam a alma ousada e atrevida, pela inflamação que sente na vontade.

As trevas e demais penas que a alma sente quando esta divina luz investe não são trevas e penas provenientes da luz, e sim da própria alma; a luz apenas esclarece para que sejam vistas. Desde o princípio, portanto, esta divina luz ilumina, mas a alma tem de ver primeiro o que lhe está mais próximo, ou por melhor dizer, o que tem em si mesma, isto é, suas trevas e misérias, as quais vê agora pela misericórdia de Deus. Antes não as via, porque não lhe era infundida essa luz sobrenatural.”

CRUZ, São João da. A noite escura da Alma. Editora Família Católica, 2018, versão Kindle, Posição: 1830-1907.