Abertura por meio da qual o outro entra

“A ferida é a abertura por meio da qual o outro entra. Ela também é o ouvido que se mantém aberto para o outro. Quem está inteiramente consigo em casa, quem se fecha em casa, não consegue escutar. A casa protege o ego do assalto do outro. A ferida rompe a interioridade doméstica, narcisista. Assim, ela se torna a porta aberta para o outro.”

HAN, Byung-Chul.A expulsão do outro: Sociedade, percepção e comunicação hoje. Ed. Vozes, 2022, Local 1224.

Escutar

A voz mina a autopresença

“Também a voz mina a autopresença. Ela cria um rasgo profundo no interior do sujeito, por meio do qual o inteiramente outro irrompe.

Hoje, não somos mais crianças frágeis. A fraqueza infantil como receptividade para o outro não corresponde à constituição da sociedade narcisista. O ego fortalecido, que é fomentado e explorado pelas relações de produção neoliberais, é cada vez mais separado do outro. A voz do outro ricocheteia inteiramente no ego pululante. A guinada narcisista da autorreferência nos torna inteiramente cegos e mudos diante do outro.”

HAN, Byung-Chul.A expulsão do outro: Sociedade, percepção e comunicação hoje. Ed. Vozes, 2022, Local 821-834.

Voz

O outro desaparece

“O imperativo da autenticidade produz uma compulsão narcísica. O narcisismo não é idêntico ao saudável amor-próprio, que não tem nada de patológico. O amor-próprio não exclui o amor pelo outro. O narcisista, em contrapartida, é cego frente ao outro. O outro é dobrado até que o ego se reconheça nele. O sujeito narcisista percebe o mundo apenas como sombras de si mesmo. A consequência fatal: o outro desaparece.

Hoje, as energias libidinosas são investidas sobretudo no eu. A acumulação narcisista da libido-pelo-eu leva à desconstrução da libido-pelo-objeto; ou seja, da libido que ocupa o objeto. A libido-pelo-objeto produz uma ligação-com-o-objeto, que, em contrapartida, estabiliza o eu. O represamento narcisista da libido-pelo-eu adoece.”

HAN, Byung-Chul.A expulsão do outro: Sociedade, percepção e comunicação hoje. Ed. Vozes, 2022, Local 363-368.

Terror da autenticidade

O imperativo da autenticidade

“O imperativo da autenticidade desenvolve uma compulsão por si, uma compulsão de se questionar, se escutar, se espiar, se cercear. Ele acentua, assim, a autorreferência narcísica. A compulsão por autenticidade compele o eu a produzir a si mesmo. A autenticidade é, em última instância, a forma de produção neoliberal do si. Ela faz de todos produtores de si mesmos. O eu como empreendedor de si mesmo produz a si, performa a si mesmo, e oferece a si mesmo como mercadoria. A autenticidade é um ponto de venda.

Assim, a autenticidade do ser diferente consolida a conformidade social. Ela permite apenas as diferenças conformes ao sistema; a saber, a diversidade. A diversidade como termo neoliberal é um recurso que se deixa explorar. Assim, ela é oposta à alteridade, que se furta a toda utilização econômica. Hoje, todos querem ser diferentes do outro. Mas, nesse querer-ser-diferente, o igual se perpetua.

O ser igual se afirma por meio do ser diferente. A autenticidade do ser diferente impõe até mesmo de maneira mais eficiente a conformidade do que a uniformização repressiva. Esta é muito mais frágil do que aquela.”

HAN, Byung-Chul.A expulsão do outro: Sociedade, percepção e comunicação hoje. Ed. Vozes, 2022, Local 335-345.

Terror da autenticidade