Dominação neoliberal

“O trabalhador se torna tanto mais pobre quanto mais riqueza ele produz. Os seus produtos são arrancados dele. O fazer do trabalho causa a sua desrealização: “A realização do trabalho aparece tanto como desrealização, que o trabalhador é desrealizado até o nível da inanição”[46]. Quanto mais ele se desgasta, mais ele se encontra sob o domínio do outro explorador. Essa relação de dominação que leva à alienação, à desrealização, é comparada por Marx com a religião: “Quanto mais o ser humano põe em Deus, menos ele mantém em si mesmo. O trabalhador põe sua vida no objeto; mas, agora, ela não pertence mais a ele, mas ao objeto. Quanto maior, portanto, essa atividade, tanto mais desprovido de objeto é o trabalhador. O que o produto do seu trabalho é, ele não é. Quanto maior, portanto, é esse produto, menor é ele mesmo”. Por causa da alienação na relação de trabalho não é possível que o trabalhador se realize. O seu trabalho é um desrealizar-se contínuo. Vivemos, hoje, em uma era pós-marxista. No regime neoliberal, a exploração não ocorre mais como alienação e autodesrealização, mas como liberdade, como autorrealização e auto-otimização. Aqui, não há mais o outro como explorador, que me obriga ao trabalho e me aliena de mim mesmo. Antes, eu exploro voluntariamente a mim mesmo, crente de que, assim, me realizo. Essa é a lógica pérfida do neoliberalismo.

Assim, também o primeiro estágio do burnout é a euforia. Lanço-me euforicamente no trabalho, até que eu, por fim, desmorone. Eu me realizo até a morte, me otimizo até a morte. A dominação neoliberal se esconde por trás da liberdade ilusória. A dominação se consuma no momento em que ela coincide com a liberdade. Essa liberdade [apenas] sentida é fatal, na medida em que ela não permite nenhuma resistência, nenhuma revolução. Contra o que deve se dirigir a resistência? Não há, afinal, mais nenhum outro ponto do qual parta uma repressão. O truísmo de Jenny Holzer “Protect me from what I want” [proteja-me do que eu quero] expressa certeiramente essa mudança de paradigma.”

HAN, Byung-Chul.A expulsão do outro: Sociedade, percepção e comunicação hoje. Ed. Vozes, 2022, Local 619-631.

Alienação

Angústias difusa

“Hoje, muitos são afligidos por angústias difusas, angústia de falhar, angústia de fracassar, angústia de se tornar dependente, angústia de cometer um erro ou de tomar uma decisão errada, angústia de não satisfazer as próprias expectativas. Essa angústia se fortalece por meio de uma constante comparação com o outro. Ela é uma angústia lateral, em oposição àquela angústia vertical, que desperta diante do inteiramente outro, do infamiliar, do nada.

Vivemos, hoje, em um sistema neoliberal que desmonta estruturas temporais estáveis, fragmenta o tempo de vida e faz com que o vinculante [Bindende], o vinculativo [Verbindlich] se desfaça, a fim de aumentar a produtividade. Essa política neoliberal do tempo produz angústia e insegurança. E o neoliberalismo separa seres humanos em empreendedores de si mesmo isolados. O isolamento, que caminha de mãos dadas com a falta de solidariedade e a concorrência total, produz angústia. A lógica pérfida do neoliberalismo enuncia: A angústia aumenta a produtividade.”

HAN, Byung-Chul.A expulsão do outro: Sociedade, percepção e comunicação hoje. Ed. Vozes, 2022, Local 529-533.

Angústia

O imperativo neoliberal do desempenho

“Ele não narra nada. Ele não seduz. O pornô produz uma desnarrativização e deslinguistificação, não apenas do corpo, mas também da comunicação em geral. Nisso consiste a sua obscenidade.

O imperativo neoliberal do desempenho, sexyness e fitness nivela o corpo, por fim, a um objeto funcional que deve ser otimizado.”

HAN, Byung-Chul.A expulsão do outro: Sociedade, percepção e comunicação hoje. Ed. Vozes, 2022, Local 128-132.

Terror do igual