Pena e Tormento

“Esta noite escura é um influxo de Deus na alma, que a purifica de suas ignorâncias e imperfeições habituais, tanto naturais como espirituais. Chamam-na os contemplativos contemplação infusa, ou teologia mística. Nela vai Deus em segredo ensinando a alma e instruindo-a na perfeição do amor, sem que a mesma alma nada faça, nem entenda como é esta contemplação infusa.

por dois motivos esta divina Sabedoria é não somente noite e trevas para a alma, mas ainda pena e tormento. Primeiro, por causa da elevação da Sabedoria de Deus, que excede a capacidade da alma, e, portanto, lhe fica sendo treva; segundo, devido à baixeza e impureza da alma, e por isto lhe é penosa e aflitiva, e também obscura.

Por sua vez disse David: “Nuvens e escuridão estão em redor d’Ele” (Salm 96, 2); não porque isto seja realmente, mas por ser assim para os nossos fracos entendimentos, os quais, em tão imensa luz, cegam-se e se ofuscam, não podendo elevar-se tanto. Esta verdade o mesmo David o declarou em seguida, dizendo: “Pelo grande resplendor de sua presença, as nuvens se interpuseram” (Salmo 17, 13), isto é, entre Deus e nosso entendimento.”

CRUZ, São João da. A noite escura da Alma. Editora Família Católica, 2018, versão Kindle, Posição: 1219-1238.

Quando o Espiritual caminha nesta noite

“O primeiro é a falta de gosto ou consolo, não somente nas coisas divinas, mas também em coisa alguma criada.

O segundo sinal para que se creia tratar-se, de fato, de purificação sensitiva, é ter a alma lembrança muito contínua de Deus, com solicitude e cuidado aflito, imaginando que não O serve, mas antes volve atrás no divino serviço. Assim pensa, por causa do desgosto que sente nas coisas espirituais.

A parte sensitiva não tem habilidade para receber o que é puramente espiritual, e assim, quando o espírito goza, a carne se descontenta e relaxa para agir. Todavia a parte espiritual, que vai recebendo o alimento, cria novas forças, com maior atenção e vigilância do que antes tinha, na sua solicitude em não faltar a Deus.

Acostumado aos gostos sensíveis, o paladar espiritual ainda os deseja; não se acha suficientemente adaptado e purificado para tão finos deleites. Até que se vá dispondo pouco a pouco, por meio desta árida e escura noite, a sentir gosto e proveito espiritual, não pode experimentar senão secura e desabrimento, com a falta do sabor que antes encontrava com tanta facilidade.

Os que Deus começa a levar por estas solidões do deserto assemelham-se aos filhos de Israel quando recebiam, ali mesmo no deserto, o manjar celeste dado pelo Senhor, e no qual cada um achava o sabor apetecido, conforme diz a Escritura (Sab 16, 20-21). Contudo, não se contentavam, e era-lhes mais sensível a falta dos gostos e temperos das viandas e cebolas do Egito, – às quais já estava acostumado e satisfeito o seu paladar, – do que a delicada doçura do maná celeste. Donde, gemiam e suspiravam pelas viandas da terra, tendo os manjares do Céu. A tanto chega, pois, a baixeza de nosso apetite, que nos leva a desejar nossas misérias e ter fastio dos bens inefáveis do Céu.

Quando, porém, estas securas são causadas por estar o apetite sensível na via de purificação, mesmo que o espírito não sinta gosto algum no começo, pelas causas já declaradas, sente, no entanto, coragem e brio para agir, robustecido com a substância do manjar interior que o sustenta. Este alimento substancioso é princípio de contemplação obscura e árida para o sentido; porque esta contemplação é oculta e secreta àquele mesmo que a recebe. Junto com a secura e vazio na parte sensitiva, a alma geralmente experimenta desejo e inclinação para ficar sozinha e quieta, sem poder, – e nem mesmo querer, – pensar em coisa distinta. Se, então, os que se acham neste estado soubessem permanecer em sossego, descuidados de qualquer movimento interior e exterior, sem nenhuma preocupação de agir, logo, naquela calma e ócio, perceberiam a delicadeza daquela refeição íntima. É tão suave esse alimento que, de ordinário, se a alma procura ou deseja saboreá-lo, não lhe sente o gosto; porque, torno a dizer, produz seu efeito na maior quietação e ócio da alma. É semelhante ao ar: se o quisermos colher na mão, ele nos foge.

De tal maneira põe o Senhor a alma neste estado, e a conduz por tão diversa via, que, se ela quiser agir com suas potências, em vez de ajudar à obra de Deus em seu interior, antes a estorvará, pois agora tudo lhe sucede ao contrário do que anteriormente.

Tudo quanto a alma, neste tempo, pode fazer por si mesma, não serve, como já o dissemos, senão para perturbar a paz interior e a obra que Deus faz no espírito mediante aquela secura no sentido. Por ser espiritual e delicada, esta obra divida é em sua esta obra divina é, em sua realização, tranquila, suave, solitária, satisfatória e pacífica, e muito alheia a todos aqueles gostos do princípio, mui palpáveis e sensíveis. Com efeito, esta é a paz em que, segundo diz David (Sal 84, 9), Deus fala à alma para torná-la espiritual. Daqui procede a terceira condição.

O terceiro sinal que há para discernir a purificação do sentido é a impossibilidade, para a alma, por mais esforços que empregue nisso, de meditar e discorrer com o entendimento e com a ajuda da imaginação, como costumava fazer anteriormente. Deus aqui começa a comunicar-se não mais por meio do sentido, como o fazia até então, quando a alma O encontrava pelo trabalho do raciocínio, ligando ou dividindo os conhecimentos; agora Ele o faz puramente no espírito, onde não é mais possível haver discursos sucessivos. A comunicação é feita com um ato de simples contemplação, a que não chegam os sentidos interiores e exteriores da parte inferior. Por isto, a imaginação fantasia não podem apoiar-se em consideração alguma, nem doravante acha aí arrimo.”

CRUZ, São João da. A noite escura da Alma. Editora Família Católica, 2018, versão Kindle, Posição: 641-699.

Explicação desta noite escura

Nesta noite que chamamos contemplação, os espirituais passam por duas espécies de trevas ou purificações, conforme as duas partes da natureza humana, a saber: a sensitiva e a espiritual.

“Assim, a primeira noite, ou purificação, é a sensitiva, na qual a alma se purifica segundo o sentido, submetendo-o ao espírito. A segunda noite, ou purificação, é a espiritual, em que se purifica e despoja a alma segundo o espírito, acomodando-o e dispondo-o para a união de amor com Deus.

Já percorreram, durante algum tempo, o caminho da virtude, perseverando em meditação e oração; pelo sabor e gosto que aí achavam, aos poucos se foram desapegando das coisas do mundo e adquiriram algumas forças espirituais em Deus. Deste modo, conseguiram refrear algum tanto os apetites naturais, e estão dispostos a sofrer por Deus um pouco de trabalho e secura sem volver atrás, para o tempo mais feliz. Estando, pois, estes principiantes no meio das melhores consolações em seus exercícios espirituais, e quando lhes parece que o sol dos diversos favores os ilumina mais brilhantemente, Deus lhes obscurece toda esta luz interior. Fecha-lhes a porta, vedando-lhes a fonte viva da doce água espiritual que andavam bebendo n’Ele todas as vezes e todo o tempo que desejavam; pois, como eram fracos e pequeninos, não havia para eles porta cerrada,

Eis que de repente os mergulha Nosso Senhor em tanta escuridão que ficam sem saber por onde andar, nem como agir pelo sentido, com a imaginação e o discurso. Não podem mais dar um passo na meditação, como faziam até agora. Submergido o sentido interior nesta noite, deixa-os Deus em tal aridez que, não somente lhes é tirado todo o gosto e sabor nas coisas espirituais, bem como nos exercícios piedosos dantes tão deleitosos, mas, em vez de tudo isto, só encontram amargura e desgosto.

Vendo-os Deus um pouquinho mais crescidos, quer que se fortaleçam e saiam das faixas da infância – tira-lhes, portanto, o doce peito e os desce dos divinos braços, ensinando-os a andar com seus próprios pés. Em tudo isto sentem grande novidade totalmente contrária ao que estavam acostumados.”

CRUZ, São João da. A noite escura da Alma. Editora Família Católica, 2018, versão Kindle, Posição: 593-620.

Imperfeições dos Principiantes

“Nesta noite escura começam a entrar as almas quando Deus as vai tirando do estado de principiantes – ou seja, o estado dos que meditam, – e as começa a pôr no dos aproveitados ou proficientes – que é já o dos contemplativos – a fim de que, passando pela noite, cheguem ao estado dos perfeitos – o da divina união da alma com Deus.

(…) será proveitoso para esses principiantes, e fará com que, vendo a fraqueza do seu estado, se animem e desejem que Deus os ponha nesta noite onde se fortalecem e confirmam nas virtudes e se dispõem para os inestimáveis deleites do Amor de Deus.”

CRUZ, São João da. A noite escura da Alma. Editora Família Católica, 2018, versão Kindle, Posição: 249-253.

Quem foi São João da Cruz?

“Em setembro de 1567 encontra-se com Santa Teresa, que lhe fala sobre o projeto de estender a Reforma da Ordem Carmelita também aos padres. O jovem de apenas vinte e cinco anos de idade aceitou o desafio. Trocou o nome para João da Cruz. No dia 28 de novembro de 1568, juntamente com Frei Antônio de Jesús Heredia, inicia a Reforma.O desejo de voltar à mística religiosidade do deserto custou ao santo fundador maus tratos físicos e difamações.

A doutrina de João da Cruz é plenamente fiel à antiga tradição: o objetivo do homem na terra é alcançar “Perfeição da Caridade e elevar-se à dignidade de filho de Deus pelo amor”; a contemplação não é um fim em si mesma, mas deve conduzir ao amor e à união com Deus pelo amor e, por último, deve levar à experiência dessa união à qual tudo se ordena”.

“Não há trabalho melhor nem mais necessário que o amor”,“Fomos feitos para o amor”. “O único instrumento do qual Deus se serve é o amor”.

“Assim como o Pai e o Filho estão unidos pelo amor, assim o amor é o laço da união da alma com Deus”.

Faleceu no convento de Ubeda, aos quarenta e nove anos, no dia 14 de dezembro de 1591, após três meses de sofrimentos atrozes. A primeira edição de suas obras deu-se em Alcalá, em 1618. No dia 25 de janeiro de 1675 foi beatificado por Clemente X. Foi canonizado e declarado Doutor da Igreja por Pio XI. Em 1952 foi proclamado “Patrono dos Poetas Espanhóis”.

Todos os que o procuravam saíam espiritualizados e atraídos à virtude. Foi amigo do recolhimento e falava pouco.

São João da Cruz é amplamente considerado como um dos principais poetas da língua espanhola. Apesar de seus poemas contarem com menos de 2500 versos, dois deles – o “Cântico Espiritual” e “A Noite Escura da Alma” – são considerados obras-primas da poesia espanhola, tanto do ponto de vista estilístico formal quanto por seu rico simbolismo.

A “Noite Escura” narra a jornada da alma de sua casa corpórea até sua união com Deus. Ela acontece durante a noite, que representa as agruras e dificuldades que ela encontra ao se desprender do mundo e alcançar a luz da união com o Criador. Há diversos passos nesta noite, relatados em sucessivas estrofes. A ideia principal do poema é a dolorosa experiência pela qual as pessoas passam em suas tentativas de amadurecer espiritualmente para unirem-se a Deus. O poema foi provavelmente escrito em 1578 ou 1579 e um comentário de João sobre as duas primeiras estrofes e a primeira linha da terceira, em 1584-1585.”

CRUZ, São João da. A noite escura da Alma. Editora Família Católica, 2018, versão Kindle, Posição: 123-159.