Comunicação sem limite

“(…) o poema Barreira linguística, de Paul Celan, trata da experiência da estrangeiridade: “Fosse eu como tu. Fosses tu como eu. / Não estaríamos então / Sob um alísio. / Somos estrangeiros. // Os azulejos, lá, / Densamente lado a lado, ambos / riem sombriamente: / dois silêncios de boca cheia”

Hoje nos entregamos inteiramente a uma comunicação sem limites. Somos praticamente atordoados pela hipercomunicação digital. A barulheira da comunicação não nos faz, porém, menos solitários. Ela, talvez, nos torna ainda mais solitários do que barreiras linguísticas. Além da barreira linguística, há sempre um tu. Ela preserva ainda a proximidade da distância. A hipercomunicação, em contrapartida, destrói tanto o tu como também a proximidade. Relações são substituídas por conexões. A ausência de distância suprime a proximidade. Dois silêncios de boca cheia poderiam conter mais proximidade, mais linguagem do que a hipercomunicação. O silêncio é linguagem; a barulheira da comunicação, em contrapartida, não é.”

HAN, Byung-Chul.A expulsão do outro: Sociedade, percepção e comunicação hoje. Ed. Vozes, 2022, Local 603-607.

Alienação