Astrologia e tarô

“O primado da astrologia no Ocidente se explica pelo fato de que os teólogos raramente se pronunciam contra ela. Enquanto Tomás de Aquino e muitos pregadores condenavam as práticas divinatórias, argumentando que elas tentariam substituir Deus, o único a poder conhecer o futuro, e que não se pode querer evitar o próprio destino subtraindo-se à vontade divina, os astrólogos raгаmente eram perturbados pela Inquisição. O franciscano Roger Bacon (cerca de 1220-1292) chegava a recomendar o recurso à astrologia na luta contra a ameaça turca. Sabemos que o rei Carlos V adorava essa disciplina e que uma ampla proporção de sua biblioteca era constituída por livros de astrologia, astronomia e adivinhação. Seu uso era visto como legítimo, segundo o adágio de Gregório, o Grande (papa e doutor da Igreja), para quem “as flechas que prevemos doem menos”. Mesmo o recalcitrante Tomás de Aquino foi obrigado a admitir que os astros inclinam, mas não determinam”. A astrologia chega a ser reconhecida como uma prática “científica” e tem seu lugar entre as artes liberais. Esse reconhecimento vem da convicção de que há uma ordem hierárquica de todas as coisas a partir dos céus: os céus que governam o mundo executam os planos da Providência divina à maneira dos servidores que obedecem à vontade do príncipe. Essa ideia, proveniente de Aristóteles e de seus exegetas árabes, foi retomada no Ocidente a partir do século XIII e amplamente difundida – de resto, a astrologia tal como a conhecemos foi elaborada pelos gregos e transmitida no Ocidente pelos árabes. O zodíaco ainda usado atualmente teria sido elaborado na Grécia entre os séculos V e II a. C. 123 Também foram os gregos a elaborar as 12 casas. Sete astros e planetas percorriam então o zodíaco de acordo com a seguinte hierarquia: Saturno influía sobre os lugares e os tempos universais; Júpiter, sobre os anos; Marte, o Sol, Vênus e Mercúrio, sobre os meses; e a Lua, sobre os dias.”

NADOLNY, Isabelle. História do TarôUm estudo completo sobre suas origens, iconografia e simbolismo. Ed. Pensamento, 2022, pág. 134.