Uno

As personagens simbólicas que comparecem essas histórias correspondem importância – e não raro em características e façanhas – às personagens das iconografias mais sofisticadas, e o mundo maravilhoso em que se movem é precisamente o mundo das grandes revelações: O mundo e a época que se encontra entre o sono profundo e a consciência desperta, a zona em que o Uno se torna o múltiplo e os muitos se reconciliam com o Uno.

Campbell, Joseph. O herói de mil faces. Pensamento, São Paulo, 2007, p. 285.

Ciclo cosmogônico

A fórmula filosófica ilustrada pelo ciclo cosmogônico refere-se a circulação da consciência pelos três planos do ser. O primeiro plano é o da experiência desperta: a cognição dos fatos brutos e crus de universo exterior, iluminado pela luz do sol e comum a todos. O segundo é o da experiência divina: a cognição das formas fluidas e sutis de um mundo interior privado, auto-iluminado e que forma uma única substância com o sonhador. O terceiro, por sua vez, é o do sono profundo: um sono não povoado por sonhos, profundamente recompensador. No primeiro plano, encontramos as experiências instrutivas da vida; no segundo ocorre a digestão dessas experiências, que são assimilados pelas forças interiores do sonhador; já no terceiro plano do ser, tudo é aproveitado e conhecido de modo inconsciente, no “espaço existente no interior do coração”, na sala do controlador interno, a fonte e o fim de tudo.

O ciclo cosmogônico deve ser entendido como a passagem da consciência universal, da profunda zona adormecida do imanifesto, para a plena luz do cotidiano desperto, por intermédio do sonho, ocorrendo, em seguida, o retorno através do sonho, para as trevas intemporais. Tal como acontece na experiência real de todo ser vivo, assim também é na figura grandiosa do cosmo vivo: no abismo do sono, as energias são recompostas; na labuta diária, são exauridas; a vida do universo se esgota e deve ser renovada

O ciclo cosmogônico pulsa, tornando-se manifesto, e retorna ao estado imanifesto, em meio ao silêncio do desconhecido. Os hindus representam esse mistério por meio da sílaba sagrada AUM. Aqui, o som A representa a consciência desperta; o som U, a consciência onírica; e o som M, o sono profundo. O silêncio em torno da sílaba é o desconhecido, chamado simplesmente de ” o Quarto “. A sílaba em se representa Deus como criador-preservador-destruidor, mas o silêncio representa o Deus eterno, absolutamente afastado de todas as idas e vindas da roda.

“É  invisível, intangível, inconcebível, imperceptível, inimaginável, indescritível. É a essência do autoconhecimento, comum a todos os estados de consciência. Todos os fenômenos aí cessam. É paz, benção, não dualidade.”

Campbell, Joseph. O herói de mil faces. Pensamento, São Paulo, 2007, pp. 261-262.

A virtude

A virtude não é senão o prelúdio pedagógico da percepção culminante, que ultrapassa todos os pares de opostos. A virtude subjuga o ego voltado para si e torna possível a convergência transpessoal (…)

Pois como declarou Heráclito (no Fragmento 46): “Os diferentes são reunidos, e das diferenças resulta a mais bela harmonia, e todas as coisas se manifestam pela oposição”.

Campbell, Joseph. O herói de mil faces. Pensamento, São Paulo, 2007, p. 48.

Unidade

Os dois, o herói e o seu deus último, aquele que busca e aquele que é encontrado – são entendidos, por conseguinte, como a parte externa e interna de um único mistério auto-refletido, mistério idêntico ao do mundo manifesto. A grande façanha do herói supremo é alcançar o conhecimento dessa unidade na multiplicidade e, em seguida, torná-la conhecida.

O efeito da aventura bem-sucedida do herói é a abertura e a liberação do fluxo da vida no corpo do mundo.

Campbell, Joseph. O herói de mil faces. Pensamento, São Paulo, 2007, p. 43.

Evangelho de Eva

Sou vós e vós sois Eu; e onde quer que possais estar aí estarei. Estou em todos os lugares e sempre que o desejardes Me encontrareis; e Me encontrando, encontrar-Vos-eis.

Campbell, Joseph. O herói de mil faces. Pensamento, São Paulo, 2007, p. 43. Citando o “Evangelho de Eva”, citado por Epifânio, Adversus haereses, xxvi, 3.

Esperança

A esperança que acalento é a de que um esclarecimento realizado em termos de comparação possa contribuir para a causa, talvez não tão perdida, das forças que atuam, no mundo de hoje, em favor da unificação, não em nome de algum império político ou eclesiástico, mas com o objetivo de promover a mútua compreensão entre os seres humanos. Como nos dizem os Vedas: “A verdade é uma só, mas os sábios falam dela sob muitos nomes”.

Campbell, Joseph. O herói de mil faces. Pensamento, São Paulo, 2007, p. 12.