Chamado de místico

“Como muitas pessoas contemporâneas ainda não compreendem essa experiência, Jung tem sido caluniosamente chamado de místico, profeta, fundador de uma religião, tudo com a conotação de uma confusão “não científica”. Se essa conotação não estivesse presente, eu até concordaria em parte com as duas primeiras descrições, porque os grandes místicos da tradição cristã (como também muitos mestres taoistas e zen do Oriente, e santos do Islã) falam como ele de uma experiência pessoal do numinoso. E os profetas (sem a conotação negativa) eram pessoas que recebiam insights da situação arquetípica subjacente da sua época em uma experiência primordial, o que fazia com que fossem capazes de prever futuros acontecimentos espirituais e fazer advertências contra os equívocos da sua época.

Quanto à terceira descrição, fundador de uma religião, é algo que Jung nunca foi nem quis ser. Quando seus alunos, sob a pressão do mundo exterior (principalmente das leis que regulamentam as profissões), organizaram uma associação profissional, Jung só o permitiu relutantemente. Para ele era um absoluto o fato de a mente precisar ser livre para seguir suas inspirações, que não podem ser aprisionadas ou contidas. Se buscarmos paralelos históricos, a
psicologia junguiana poderia de pronto ser comparada ao taoismo original da China, uma sabedoria que abraçava toda a vida humana. Mais tarde, os taoistas também se reuniram em comunidades organizadas, mas, ao fazê-lo, perderam em grande parte o significado do Caminho (Tao) indicado por Lao-tzé ou Chuang-tzé. Encontramos outra semelhança entre os dois mundos na afinidade dos taoistas com a alquimia.

Em decorrência do seu interesse pelas ciências naturais, os taoistas não foram rejeitados pelo maoismo e ali, também, existe uma espécie de paralelo. A questão aqui é que a ideia de que a psicologia junguiana “não seja científica” é totalmente falsa. Muitos de seus aspectos, como os arquétipos e sua influência, a teoria dos sonhos e o entendimento dos complexos, definitivamente resistem a um exame dos métodos “duros” das ciências naturais. É somente a experiência curativa do significado, o encontro com o numinoso, em decorrência da sua qualidade criativa e evolutiva única, que não pode ser entendida através de métodos estatísticos. Ela só pode ser demonstrada através da exposição direta a ela.

E, além disso, como salienta Jung, mesmo então, embora alguma coisa possa acontecer, não ocorrerá necessariamente. Caso contrário, a ação do princípio divino não seria livre; seria cercada pelas leis da natureza. No entanto, tendo em vista sua natureza essencialmente criativa, este não parece ser o caso. Jung vai ainda mais longe e diz que a imaginação ativa é “o único fenômeno primordial que nos é acessível, a verdadeira Base da psique, a realidade imediata”. É o principio divino próprio. E esse símbolo da espontaneidade criativa do insconsciente se põe, em última análise, por atrás da criação de qualquer religião.”

 

FRANZ, Marie-Louise von. Psicoterapia.São Paulo: Paulus, 2021, pág. 244-246.

A dimensão religiosa da análise

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