Produção criativa

“O banheiro é um lugar de produção “criativa”, e todo simbolismo de excremento frequentemente apon-ta nos sonhos para problemas criativos. Ele desempenha um papel especialmente importante no caso dos esquizo-frênicos, porque, afinal de contas, como Jung com fre-quência salientou, um caso de esquizofrenia só pode ser curado na medida em que é possível levar o paciente a realizar uma estruturação criativa dos conteúdos que o oprimem. Não podemos ser empurrados em direção a esse tipo de criatividade através da ambição e do dese-jo de sucesso material. Só podemos ser criativos dessa maneira “por amor a Deus”.

(…)

René Gardi descreve, em seu adorável livro Sepik, como os nativos dessa região concluíam e “consagravam” uma casa. Primeiro, os construtores “profanos” vão trabalhar, e os futuros donos não mais têm permissão para entrar na casa. Depois, é a vez dos artistas, que formam uma espécie de classe sacerdotal, e eles fabricam no centro da casa postes totêmicos com imagens de espíritos e deuses. Finalmente, a casa é consagrada por outros sacerdotes que executam rituais. Somente na quarta fase o dono tem permissão para entrar na casa. Tornava-se claro aí que a arte como fenômeno psíquico primordial cumpre uma tarefa religiosa e representa um aspecto do “levar cuidadosamente em conta as forças transcendentais” que correspondem aos cantos, preces e rituais dos sacerdotes. Dar forma aos espíritos é tarefa “sagrada”, e as obras devem ser formadas em atenção a si mesmas, ao espírito, e não de acordo com o gosto ou a disposição de ânimo do artista.

Esse também é a arte da criatividade que o inconsciente exige da consciência em muitos casos: o inconsciente exige que o trabalho seja realizado em atenção a si mesmo, ainda que o mundo nunca venha a ver o produto final. Mas isso pressupõe uma atitude generosa, não a ambição social de uma criada insegura, e sim o funcionamento desinteressado de um artesão. Isso também não funciona sem a aceitação do que eu chamei de “desapontamento criativo”. Mesmo a pessoa mais talentosa precisa repetidamente aceitar a experiência de que, quando comparado com o que ela viu com a visão interior, o produto final, apesar de todo o amor e dedicação que possam ter participado da produção é uma representação tristemente imperfeita.

FRANZ, Marie-Louise von. Psicoterapia.São Paulo: Paulus, 2021, pág. 271-273.

A atitude religiosa ou mágica diante do inconsciente

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