“(…)De fato, é impossível determinar com exatidão a amplitude e o caráter definitivo da existência psíquica. Quando falamos aqui do homem, aludimos a uma sua realidade que não pode ser delimitada e nem é suscetível de formulação, só podendo ser expressa por meio de símbolos. Escolhi a expressão “Si-mesmo” (Selbst) para designar a totalidade do homem, a soma de seus aspectos, abarcando o consciente e o inconsciente. Adotei tal expressão no sentido da filosofia oriental(…) O mundo é o que sempre foi, mas nossa consciência está submetida a estranhas modificações.
(…) Onde há uma lacuna, onde falta o verdadeiro saber, ainda hoje o espaço é preenchido com projeções. Continuamos quase certos de saber o que os outros pensam ou qual é o seu verdadeiro caráter.
Se quisermos imaginar uma pessoa bastante corajosa para se desvencilhar de todas essas projeções, devemos pensar, em primeiro lugar, num indivíduo que tenha consciência de possuir uma sombra considerável. Tal homem sobrecarregou-se de novos problemas e conflitos. Converteu-se numa séria tarefa para si mesmo, porque já não pode mais dizer que são os outros que fazem tal ou tal coisa, nem que são eles os culpados e que é preciso combatê-los. Vive na “casa do autoconhecimento”, da concentração interior. Seja qual for a coisa que ande mal no mundo, este homem sabe que o mesmo acontece dentro dele, e se aprender a arranjar-se com a própria sombra, já terá feito alguma coisa pelo mundo. (…) E como poderá ver claramente, quem não se vê a si mesmo, nem às obscuridades, que inconscientemente impregnam todas as suas ações?
JUNG, C.G. Psicologia e Religião.Psicologia e Religião Ocidental e Oriental ,OC. Editora Vozes. 2012. Pág.104-106.
III. História e psicologia de um símbolo natural
