“O Bardo Thödol é um livro de instruções para o morto que acaba de deixar a vida. Deve servir-lhe de guia durante sua existência de Bardo – um estado intermediário de 49 dias simbólicos, período que se estende entre a morte e o novo nascimento – mais ou menos à semelhança do Livro Egípcio dos Mortos. O texto se divide em três partes. A primeira, chamada Tschik- hai-Bardo, descreve os acontecimentos psíquicos que se passam na alma na hora da morte. A segunda, chamada Tschönyid-Bardo, trata do estado onírico que tem início com a morte definitiva, e que são as assim chamadas ilusões cármicas. A terceira parte, dita Sidpa-Bardo, desenvolve-se em torno do começo dos impulsos para a geração e o novo nascimento, e dos acontecimentos da vida pré-natal. (…) As instruções têm por escopo chamar a atenção do morto, a cada etapa de ofuscamento e de confusão interior, para as possibilidades de libertação em cada um desses momentos, e esclarecê-lo a respeito da natureza de suas visões. Os textos do Bardo são lidos pelo lama em presença do cadáver.
O Bardo Thödol, chamado com razão de Livro Tibetano dos Mortos por seu editor W.Y. Evans-Wentz, provocou grande sensação nos países de língua inglesa, por ocasião de seu primeiro aparecimento, no ano de 1927. É uma daquelas obras que interessam não apenas aos estu- diosos do budismo mahayana, mas também, e sobretudo, ao leigo que deseja ampliar seus conhecimentos a respeito da vida, devido ao seu ca- ráter profundamente humano e sua visão mais profunda ainda dos mistérios da psique. Desde o ano de seu aparecimento, o Bardo Thödol tem sido para mim um companheiro constante, ao qual devo não apenas numerosos estímulos e informações, como também conhecimentos da maior importância.
Talvez ele seja pouco simpático aos filósofos ocidentais, pois o Ocidente ama a clareza e o inequívoco, razão pela qual alguém se sente inclinado a afirmar: “Deus existe”, enquanto outro se declara, com igual fervor, pela negação: “Deus não existe”. Que farão estes dois irmãos inimigos diante de uma frase como a seguinte: “Quando vires que este vazio de teu próprio sentido é a natureza de Buda e a considerares como sendo tua própria consciência, então estarás no divino espírito de Buda”?
(…) a consciência como manifestação sensível e inteligível da alma é a causa primeira de todos os enunciados metafísicos. O “vazio” é o estágio que antecede qualquer enunciado, qualquer “afirmação”. A série das diversas manifestações ainda jaz latente no fundo da alma.”
JUNG, C.G. Psicologia e Religião Oriental,OC. Editora Vozes. 2011. Pág. 49-52.
Comentário psicológico ao Bardo Thodol

