“(…) Essa é, na verdade, a essência do processo da individuação, As quatro funções são como rodas que colocamos sobre o carro, mas que podemos às vezes encaixar novamente no lugar, se as quisermos usar de novo. Nesse momento, o problema das funções já não é mais relevante; elas se tornaram meros instrumentos de uma consciência que não mais se apoia nelas nem é mais levada a agir ativamente dentro das funções. Essa consciência tem agora sua base de operação em outra dimensão, dimensão essa que só pode ser criada pelo mundo da imaginação. É por isso que Jung chama isso é o que ele chama de função transcendente; ela cria os símbolos unificadores. Isso coincide estranhamente com o simbolismo alquímico, que sempre faz referencia ao problema dos quatro elementos – a água, o fogo, o ar e a que são, como no texto acima citado, representados como rodas que têm de ser integradas. Existe, então, terra a quinta-essência, que não é outro elemento, mas, por assım dizer, ao mesmo tempo a substância de todos os quatro e nenhum dos quatro. Lá temos a mesma ideia: sobre a quarta surge uma quinta coisa que não é a quatro, e sim algo além delas e que é composto de todas elas. É isso que os alquimistas chamavam de quinta-essência, a quinta essencia ou pedra filosofal. Significa um núcleo consolidado da personalidade que não mais é idêntico ou se identifica com qualquer uma das funções. Ai a pessoa se afasta, por assim dizer, da identificação com a consciência e com o inconsciente pessoal, e passa a viver, ou tenta viver, nesse plano intermediário no qual as quatro funções estão integradas. A partir de então, diz o texto a pessoa se move sem movimento, corre sem correr (currens sine cursu, movens sine motu) (…)
○ que chamamos de imaginação ativa é diferente do que é geralmente usado em outros sistemas terapêuticos, nos quais deixamos as pessoas apenas criar fantasias. É fantasiar com a consciência do ego assumindo seu ponto de vista. Poderíamos chamar essa quinta coisa o anseio em direção à individuação, o elemento de constante insatisfacão e inquietação que importuna as pessoas ate que elas atingem um nível mais elevado repetidas vezes na vida. O principium individuationis é idêntico à função transcendente, mas, na forma especial da psicologia junguiana, não deixamos que ele nos morda só quando temos de dar o passo seguinte. Nós nos voltamos diretamente para ele e tentamos dar-lhe forma expressando-o através da imaginação ativa.
(…)O centro de gravidade se desloca do ego e da sua operação funcional para uma posição intermediária, para dedicar-se as sugestões do Si-mesmo.
Através da interpretação das quatro funções, Jung criou um instrumento pelo qual uma grande quantidade de brigas e mal-entendidos desnecessários pode ser eliminada. Ela é especialmente útil para amainar rixas conjugais. Aplicá-la aos grupos étnicos permanece uma tarefa para as gerações futuras. Os grupos étnicos também são, com frequência, predominantemente governados por uma função: por exemplo, os irlandeses, pela intuição; os ingleses, pela sensação; os alemães, pelo pensamento e os franceses pelo sentimento. Assim, existe muito mais a ser investigado no futuro.”
FRANZ, Marie-Louise von.Psicoterapia.São Paulo: Paulus, 2021, pág. 178-181.
Paralelos arquetípicos do modelo das quatro funções
