“Minha tarefa aqui é fazer um relato da “imaginação ativa na psicologia de C. G. Jung. Como é notório, trata-se de uma maneira dialética particular de lidar com o inconsciente. Jung começou a descobri-la por volta de 1916, quando trabalhava consigo mesmo.Ele a descreveu pela primeira vez, em pormenor, em 1929, em sua introdução à obra O segredo da flor de ouro, de Richard Wilhelm, e em 1933 em O eu e o inconsciente.Descobriu que um efeito benéfico ocorre quando tentamos objetivar conteúdos do inconsciente no estado desperto e nos relacionar conscientemente com eles. Isso pode ser feito através da pintura ou da escultura – ou, mais raramente, da dança mas principalmente através do relato escrito dos fenômenos interiormente observados. A conversa com figuras interiores desempenha um papel especialmente importante neste caso.
(…)Ao contrário dos sonhos, que representam mero produto do inconsciente, a imaginação ativa confere expressão ao fator psíquico que Jung chamou de função transcendente, (A função que realiza uma sintese entre a personalidade consciente e a inconsciente.) Por conseguinte, a imaginação ativa efetua algo semelhante a um amadurecimento da personalidade mais intenso e acelerado (em comparação apenas com a analise dos sonhos).
As pessoas que não praticam a imaginação ativa, ou que não a praticam sob a supervisão de um professor que a compreenda, podem facilmente confundi-la com a chamada imaginação passiva, ou seja, com aquele “cinema interno” que praticamente qualquer pessoa que tenha dom para a fantasia é capaz de fazer desfilar diante da visão interior, quando se encontra em um estado de relaxamento, como, por exemplo, antes de pegar no sono. Além disso, o dialogo interior com um complexo ou um afeto, ou tipo de diálogo interior dentro de uma situação imaginária que tão frequentemente realizamos involuntariamente com nós mesmos, não deve de modo nenhum ser confundido com a imaginação ativa. Nas formas acima mencionadas, a parte envolvida “sabe” o tempo todo, como se em outro canto da mente, que tudo “não passa” de fantasia. (…) Mas a imaginação ativa, que Jung também chamava, com restrições, de psicose antecipada”, distingue-se dessas formas de fantasia no sentido de que o todo da pessoa participa conscientemente do evento.
(…)
O fato de a imaginaçao surgir com muita facilida de deve ser considerado suspeito, imaginação ativa exige esforço considerável e, no início, raramente pode ser sustentada por mais do que dez ou quinze minutos. (…) Uma delas é uma espécie de cãibra da consciência que faz com que nada surja na mente da pessoa. Outra dificuldade típica se expressa através de uma resistencia apática e uma aversão intransponível ou de uma disposição de ânimo negativa interna que está sempre dizendo, “Tudo isso não é real, é apenas invenção” . Jung disse:
A arte de deixar as coisas acontecerem, da ação através da não ação, de nos entregarmos, como ensinado pelo Mestre Eckhart, tornou-se para mim a chave que abriu a porta para caminho. Temos de ser capazes de deixar as coisas acontecerem na psique. Para nós, esta é na verdade uma arte que poucas pessoas conhecem. A consciência está eternamente interferindo, ajudando corrigindo e negando. Nunca deixa em paz o simples crescimento dos processos da psique.
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(…) a melhor maneira de lidar com a voz da dúvida é simplesmente deixá-la falar e depois responder o seguinte: “É possível que isso não seja real, mas no momento vou prosseguir”. Geralmente, então, alguma coisa acontece que convence a pessoa da realidade estranhamente viva e independente do parceiro da conversa. A mente pessoa se dá conta do seguinte: “Nunca poderia ter conscientemente inventado isso”. A melhor maneira de dizer se uma imaginação ativa é genuína ou não é através dos seus efeitos, pois são enormes e imediatamente perceptítíveis, num sentido positivo ou negativo.”
FRANZ, Marie-Louise von.Psicoterapia.São Paulo: Paulus, 2021, pág. 183-187.
A imaginação ativa na psicologia de C.G Jung
