“A imaginação ativa adequada, contudo, é um ato criativo de libertação levado a cabo através dos símbolos. Ela poderia ser erroneamente interpretada como uma tendência perigosa em direção à “autossalvação” — não, com efeito, esse perigo está excluído, porque o uso adequado da imaginação ativa só pode se dar em um contexto religioso, ou seja, na presença de uma consciência completa de admiração reverente pelo numinoso.
(…) a imaginação ativa é um grau ainda mais evoluído do que Jung chamava de processo de individuação, a autorrealização completa e consequente da totalidade individual. Através desse processo, a imago dei (imagem de Deus) é vivenciada no indivíduo e começa a concretizar sua influência além do nível do ego. Este último se torna um servo das suas tendências em direção à concretização, um servo sem o qual o Si-mesmo não poderia encarnar na nossa dimensão de espaço.
(…)
(…)orientais de ioga, os exercícios de Santo Inácio de Loyola e as práticas de meditação dos alquimistas. Essa comparação demonstrou que estas últimas estão muito mais estreitamente relacionadas com a imaginação ativa de Jung do que os dois primeiros pela seguinte razão. Nas formas orientais da ioga (talvez com a exceção da meditação zen budista, que voltarei a mencionar mais tarde), o “guru” assume em grande parte o comando, e os textos também fornecem certas instruções que talvez possam conduzir o discípulo à experiência do que chamamos de Si-mesmo. Nos exercicios cristãos, a imagem do Si-mesmo se torna visível em Cristo, e neste caso o discípulo também é levado a aproximar-se dela internamente, de certa maneira. Em ambos os casos, o discípulo é advertido com relacão a obstáculos e é informado de que deve “descartá-los ou enxotá-los como tentações”.
Em comparação com esses processos, a imaginaçad ativa junguiana é muito menos programática. Não existe nenhuma meta que obrigatoriamente tenha de ser atingida (nenhum “treinamento de individuação”), nenhum modelo, imagem ou texto a ser usado como guia no caminho, nenhuma postura ou controle da respiração são recomendados (e o paciente também nao se deita no sofá, nem o analista participa das fantasias) A pessoa simplesmente começa com o que vem de dentro dela, com uma situação de sonho relativamente inconclusiva ou uma momentânea modificação do estado de espírito. Se surge um obstáculo, a pessoa que medita é livre para considerá-lo ou não como tal; é ela que resolve como deve reagir diante dele. (…) Digamos que um homem esteja lutando em uma fantasis para alcançar o cume de uma alta montanha, e belas muIheres se aproximam, tentando seduzi-lo e levá-lo para as profundezas. Não dizemos a ele nesse ponto: “Essa é uma fantasia erótica, uma tentação que está tentando impedir que você atinja sua meta elevada”, Também não dizemos: “Essa é uma parte da vida que você precisa incorporar antes de continuar a escalada!” Simplesmente não dizemos nada. A pessoa é que tem de explorar sozinha o que esté encontrando e resolver o que deve fazer a respeito- exatamente como na vida exterior.
É essa absoluta liberdade que diferencia a forma Junguiana de imaginação ativa de quase todas as ou tras formas de meditação e o que a torna mals parecida com a imaginatio vera dos alquimistas.”
FRANZ, Marie-Louise von. Psicoterapia.São Paulo: Paulus, 2021, pág. 196-198.
A imaginação ativa na psicologia de C.G Jung
