O inconsciente é “religioso”

“Para espanto meu, encontrei um budista japonês com o mesmo problema. Ele havia tido significativas experiências de luz quando era jovem e se tornara professor de budismo. Estava sofrendo de uma úlcera estomacal que aparentemente não podia ser curada por nenhuma das dietas especiais que lhe haviam sido prescritas. Disse então para ele: “Pergunte ao dharmakaya (corpo de Buda) dentro de você o que deve comer e o que você deve fazer para curar a si mesmo”. Ele me olhou, completamente estupefacto; nunca lhe ocorrera fazer algo desse tipo. Mais tarde, escreveu-me, dizendo que fizera a tentativa e que ficara curado. Ele acrescentou: “Vejo que a psicologia junguiana acrescenta à religião uma base de realidade que perdemos”.

Essa perda do contato com a base empírica nas questões da religião resulta frequentemente de um excesso de tradicionalismo. Por conseguinte, Jung salienta que,
quando enfatizamos demais o desenvolvimento do cristianismo, deixamos de reparar o que existe de novo nele.

Precisamos de um novo ponto de partida, e isso não pode ser encontrado sem a escolha de um novo significado. A mensagem só está viva quando cria um novo significado. O fato de que Cristo é o eu dos [seres humanos] está implícito no evangelho, mas a conclusão de que Cristo = eu nunca foi explicitamente elaborada. Essa é a escolha de um novo significado, um estágio ulterior na encarnação ou realização de Cristo.

(…) A dimensão religiosa na análise nada mais é do que descobrir dessa maneira um novo significado, maneira essa que às vezes reaviva ideias religiosas já existentes, e às vezes as transforma.

(…)O inconsciente é “religioso”, ou seja, é a matriz de toda experiência religiosa primordial —, mas frequentemente não é “ortodoxo”.

Nota* “Pare obter um entendımento das questões religiosas, provavelmente tudo que nos resta hoje seja a abordagem psicológica. E por isso que tomo essas formas-pensamentos que se tornaram historicamente rígidas, tento derretê-las novamente e derrama-las em moldes de experiencia imediata”.

Se você encarar a doutrina (da Igreja católica) de maneira literal, estará colocando-se de lado, até que não restará ninguém que possa representá-la a não ser cadáveres. Se, por outro lado, você verdadeiramente assimilar a doutrina, irá alterá-la criativamente através do seu entendimento individual, conferindo, portanto, vida a ela. A vida da maioria das ideias consiste na natureza controversa delas. I.e., você pode discordar delas, ainda que reconheça a importância delas para uma maioria. Se concordasse plenamente com elas, você poderia muito bem ser substituído por um disco de gramofone.

Mais difícil ainda, na minha opinião, é ajudar uma pessoa a avançar em direção à dimensão religiosa quando ela foi de tal modo atormentada pela doutrinação religiosa, que se desfez do que é bom e do que é mau, e não quer mais ter nenhuma relação com a religião (…)

Nota*- Jung, carta ao padre Victor White, 10 de abril de 1954, Letters, vol. 2, p. 169.

FRANZ, Marie-Louise von. Psicoterapia.São Paulo: Paulus, 2021, pág. 225-227.

A dimensão religiosa da análise

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