“Nos casos individuais, podemos ver o lado perigoso do numinosum em atividade no fenômeno que, quando um arquétipo se aproxima do limiar da consciência, desenvolve a tendência de fascinar o ego consciente e de fazer pressão para que seu conteúdo simbólico seja concretamente representado. Se a pessoa não conseguir manter a cabeça e o coração no lugar, ela se torna possuída e inflada.
(…)
Quando uma experiência religiosa primordial ocorreu, ela é absoluta para aquele que a teve. Não obstante, se ele ao mesmo tempo compreender essa experiência como uma descoberta pessoal de significado, admitirá que Deus, ou o numinosum, também poderia revelar-se de milhares de outras formas, pois, em última análise, ele é algo incomensurável que só se revela através do filtro da psique humana, onde nos fala sob o aspecto de imagens e formas míticas. O que ele é “em si”, contudo, não podemos saber, pelo menos não nesta vida. Por conseguinte, essa pessoa jamais desejará pregar sua experiência como a verdade universalmente válida.
(…) Jung salienta que uma experiência religiosa traz consigo sua própria prova, na medida em que ao mesmo tempo o ego, apesar dessa experiência, nunca desista de duvidar de que a compreendeu corretamente. “Da minha parte”, disse Jung, “prefiro a dádiva preciosa da dúvida, porque ela não viola a virgindade das coisas que estão além do nosso alcance.” Essa atitude permanece eternamente nova e aberta a experiências internas ainda mais abrangentes.
(…) A “corrente” compensatória no inconsciente coletivo da nossa cultura se manifesta com uma frequência especial nos conteúdos míticos que lembram o simbolismo da alquimia. A mitologia alquímica parece se relacionar particularmente com quatro problemas: (1) elevar a condição do indivíduo em relação à uniformidade da massa; (2) intensificar a valorização do princípio feminino e eros (tanto nas mulheres quanto nos homens); (3) o problema do mal; (4) reconciliar os opostos da estrutura psíquica fundamental do ser humano.
FRANZ, Marie-Louise von. Psicoterapia.São Paulo: Paulus, 2021, pág. 230-232.
A dimensão religiosa da análise
