“(…) Ao concluir o Mysterium coniunctionis, o próprio Jung declarou: “Acredito não ter dito aqui tudo que existe sobre o assunto; ainda há muito mais, mas eu o apresentei até onde fui capaz”.
(…) parece-me oportuno dividir o problema em quatro aspectos principais: (1) a identidade arcaica, (2) as projeções mútuas, (3) o relacionamento pessoal, (4) a união predestinada na “eternidade”.
Na prática, não é o primeiro aspecto que aparece mais claramente no início, e sim o segundo.(…) essas projeções também constelam no analista todas as imagens paralelas que não foram conscientemente processadas, e, como resultado, um emaranhamento dos problemas das duas partes se torna quase imediatamente manifesto.
(…) Notei, em meu caso particular, que vivenciei algumas vezes intensas fascinações de contratransferência com analisandos que, a partir do meu ponto de vista consciente, não pareciam particularmente agradáveis, e, nesses casos, aconteceu regularmente que um grave problema ou ameaça de morte que eu não percebera estava presente. Tão logo o estado do analisando melhorava, toda a fascinação desaparecia como se por mágica.
A iminência não percebida da morte tinha especialmente esse efeito. Parece-me que dessa maneira a natureza, ou seja, o inconsciente, estava simplesmente tentando me impor a participação emocional e o esforço de entendimento necessários, visto que minha abordagem consciente era inadequada. Tivesse eu tentado, nesses casos, descartar prematuramente essa fascinação como uma “projeção”, ela não teria sido capaz de funcionar positivamente em benefício do analisando.
(…)
Inversamente, muitos não interpretam suas próprias fantasias amorosas como projeções, e sim como relacionamentos necessários “predestinados” pela vida ou pelo Si-mesmo apenas porque esse é, na verdade, seu desejo secreto. Dessa maneira, o analista é simplesmente dominado por uma sensualidade inconsciente ou uma tendência de rejeição, gerando resultados negativos para ambas as partes envolvidas.”
FRANZ, Marie-Louise von. Psicoterapia.São Paulo: Paulus, 2021, pág. 287-290.
Alguns aspectos da transferência
