Liberdade nas extremidades

“A literatura sociológica atual geralmente estabelece uma distinção entre:

(1) grupo, i.e., um conjunto de pessoas que estão relacionadas entre si intelectualmente ou no nível do sentimento e em que cada uma desempenha determinado papel;

(2) multidão, i.e., um ajuntamento aleatório de pessoas; e

(3) massa, i.e., uma grande multidão emocional e instintivamente unida que, de modo geral, segue um líder.

(…)

(…) mesmo nas sociedades mais primitivas que conhecemos hoje, encontramos grupos sociais bem ordenados.

Na maioria das vezes, as grandes famílias e os clãs parecem formar a base da ordem social e, por conseguinte, os sociólogos precipitadamente concluíram que os interesses do “nós” basicamente vêm em primeiro lugar, antes dos interesses do “eu”. Essas teorias deixam de fora o problema do inconsciente, tanto no nível pessoal quanto no coletivo, sofrendo, portanto, uma simplificação excessiva e terrível.

Segundo o exemplo de Pierre Janet, Jung estabelece uma distinção entre a parte superior e a parte inferior de todas as funções psicológicas, inclusive dos arquétipos. A parte inferior de um arquétipo é um padrão de comportamento instintivo no sentido zoológico da palavra; ela possui mais o aspecto de impulso emocional e é mais compulsiva (a reação total ou nenhuma reação). A parte superior contém mais possibilidades de uma realização interna consciente e é mais flexível. Jung comparava a psique a um espectro cuja extremidade infravermelha seriam os impulsos comportamentais psicossomáticos, e a extremidade ultravioleta, as realizações simbólicas de significado, a experiência das ideias fixas, das normas coletivas, das inspirações religiosas etc. Um grupo com sua ordem social seria colocado mais perto da extremidade ultravioleta, a massa com suas reações emocionais compulsivas estaria mais perto da extremidade infravermelha do espectro das cores. Na literatura sociológica, o grupo é geralmente avaliado positivamente, e a massa, negativamente. Isso me parece bastante arbitrário, porque com frequência, na história, a luta de uma nação, por exemplo, por sua liberdade (exibindo todas as características de fenômeno de massa) tem sido avaliada de maneira positiva (por exemplo, a libertação da Suíça do domínio austríaco). Inversamente, grupos razoavelmente organizados que defendem uma ideologia política podem dominar uma nação de uma forma tão inflexível, que sufocam toda vida emocional com seu charme e calor. Assim, ambas as extremidades do espectro podem ser tanto positivas quanto negativas, de acordo com pontos de vista diferentes. Parece-me que uma posição intermediária entre os dois polos representa uma situação ideal. A tendência em direção à extremidade infravermelha (os fenômenos de massa) produz explosões com conteúdo emocional e afetivo excessivo. As aberrações em direção à extremidade ultravioleta geram o fanatismo ideológico e os estados de possessão religiosa ou política.Não existe liberdade em nenhuma das duas extremidades; somente na posição intermediária, entre os opostos, parece ser possível existir certa dose de consciência, a qual traz consigo a liberdade individual.”

FRANZ, Marie-Louise von. Psicoterapia.São Paulo: Paulus, 2021, pág. 337-339.

A Psicologia em grupo

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