Deus Interior

“Temos testemunhos históricos que nos demonstram que os sonhos, as visões e mesmo as alucinações acham-se muitas vezes misturados ao Opus filosófico¹⁹. Nossos antepassados, cuja índole espiritual era mais ingênua do que a nossa, projetavam seus conteúdos inconscientes na matéria. Esta podia assimilar facilmente tais projeções, porque constituía nessa época um ser desconhecido e incompreensível.

(…) Poderíamos dizer, com as palavras de um poeta clássico: Naturam expellas furca tamen usque recurret.*


Nota*:
HORÁCIO. Espistolae, I, X, 24: “A natureza acaba sempre voltando, mesmo que seja expulsa a golpes de forcado.”

A divisão em quatro, a síntese dos quatro, a aparição miraculosa das quatro cores e as quatro fases da obra: nigredo, dealbatio, rubefactio e citrinitas constituem a preocupação constante dos antigos filósofos. O quatro simboliza as partes, as qualidades e os aspectos do Uno.

Interessou-me sempre saber o modo pelo qual as pessoas interpretam tal símbolo, de acordo com seus próprios pensamentos, sem uma informação prévia acerca de sua história. Procurando, portanto, com todo cuidado, não influir sobre tais pensamentos, sempre constatei, em geral, que, segundo o modo de pensar dos indivíduos, ele (o quaternio) os simboliza a eles mesmos, ou melhor, a algo dentro deles mesmos. Eles o sentem como algo que intimamente lhes pertence, como uma espécie de fundo criador, ou como um sol vivificante nas profundezas do inconsciente. Embora não seja difícil perceber que certas representações de mandalas parecem reproduzir a visão de Ezequiel, raramente tal analogia foi reconhecida, mesmo no caso da pessoa ter conhecimento dessa visão, o que, seja dito de passagem, é muito pouco frequente na atualidade.

(…)a quaternidade é uma representação mais ou menos direta de um Deus que se manifesta na sua criação.Por isso, poderíamos concluir que o símbolo produzido espontaneamente nos sonhos dos homens modernos indica algo semelhante: o Deus interior.


JUNG, C.G
. Psicologia e Religião.Psicologia e Religião Ocidental e Oriental ,OC. Editora Vozes. 2012. Pág.75-77.

II. Dogma e Símbolos naturais

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