Liberdade e Escolha

“O “livre-arbítrio” constitui um sério problema, não somente do ponto de vista filosófico, como também do ponto de vista prático, pois raramente encontramos pessoas que não sejam ampla ou mesmo prevalentemente dominadas por suas inclinações, seus hábitos, impulsos, preconceitos, ressentimentos e toda espécie de complexos.

(…) sempre há na alma alguma coisa que se apodera da liberdade moral, limitando-a ou suprimindo-a. Para dissimular esta realidade verdadeira, mas desagradável, e para animar-se no sentido de conseguir a liberdade, as pessoas costumam usar o modismo, no fundo apotropaico, dizendo: “Eu tenho” a inclinação ou o costume ou o ressentimento, em vez de afirmar de acordo com a verdade: “Tal inclinação ou tal costume ou tal ressentimento me têm”.

(…)

Verdadeiramente, não gozamos de qualquer liberdade sem dono, mas nos achamos continuamente ameaçados por certos fatores psíquicos capazes de nos dominar sob a forma de “fatos naturais”.

(…) A única tarefa que nos cabe é escolher o “senhor” a quem desejamos servir, para que esse serviço nos proteja contra o domínio dos “outros”, que não escolhemos. “Deus” não é criado, mas escolhido.

(…)Nossa escolha caracteriza e define “Deus”. (…) O “Senhor” que escolhemos não se identifica com a imagem que dele esboçamos no tempo e no espaço. Ele continua a atuar como antes nas profundezas da alma, como uma grandeza não reconhecível. A(…) Aí talvez pudéssemos dizer com Nietzsche: “Deus está morto”. Todavia, seria mais correto afirmar: “Ele abandonou a imagem que havíamos formado a seu respeito e nós, onde iremos encontrá-lo de novo?” O interregno é cheio de perigos, pois os fatos naturais farão valer os seus direitos sob a forma de diversos “ismos”, dos quais nada resulta senão a anarquia e a destruição. Isto porque, em consequência da inflação, a hybris da consciência escolhe o eu, em sua miserabilidade visível, para senhor do universo.”

 

JUNG, C.G. Psicologia e Religião.Psicologia e Religião Ocidental e Oriental ,OC. Editora Vozes. 2012. Pág.108-109.

III. História e psicologia de um símbolo natural

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