Mercúrio: o Espírito Divino Oculto na Matéria

Não espero que nenhum cristão crente siga o curso destas ideias, que talvez lhe pareçam absurdas. Não me dirijo também aos beati possidentes (felizes donos) da fé, mas às numerosas pessoas para as quais a luz se apagou, o mistério submergiu e Deus morreu. Para a maioria não há retorno possível e nem se sabe se o retorno seria o melhor. Para compreender as coisas religiosas acho que não há, no presente, outro caminho a não ser o da psicologia; daí meu empenho de dissolver as formas de pensar historicamente petrificadas e transformá-las em concepções da experiência imediata.

(…)

Sei unicamente — e o que sabe um grande número de outras pessoas — que estamos numa época ou de morte ou de desaparecimento de Deus. Diz o mito que Ele não foi encontrado onde seu corpo havia sido depositado. O “corpo” corresponde à forma externa, visível, da versão até então conhecida, mas passageira, do valor supremo. Pois bem, o mito acrescenta ainda que o valor ressuscita, mas transformado de um modo miraculoso. Isto parece um milagre, pois toda vez que um valor desaparece, a impressão é de que foi perdido para sempre. Por isso, sua volta é um fato completamente inesperado. A descida aos infernos, durante os três dias em que permanece morto, simboliza o mergulho do valor desaparecido no inconsciente, onde vitorioso sobre o poder das trevas, estabelece uma nova ordem de coisas e de onde volta, para elevar-se até o mais alto dos céus, ou seja, até à claridade suprema da consciência. O pequeno número de pessoas que vêem o Ressuscitado é uma prova de que ainda são poucos as dificuldades com que se tropeça quando se aspira a reencontrar e a reconhecer o valor transformado.

Utilizando um sonho à maneira de exemplo, mostrei como o inconsciente produz um símbolo natural, que designei tecnicamente pelo nome de mandala e cujo significado funcional é o da conciliação dos contrários, isto é, a mediação.

(…)

“pois […] assim como […] o Bem sobrenatural e eterno, nosso mediador e salvador, Jesus Cristo, que nos liberta da morte eterna, do diabo e de todo o mal, participa de duas naturezas, isto é, da divina e da humana, assim também este nosso Salvador terreno é constituído de duas partes, a celeste e a terrena, mediante as quais ele nos restitui a saúde e nos livra das enfermidades celestes e terrenas, espirituais e corporais, visíveis e invisíveis”.

Estes “filósofos” imaginaram que havia um “spiritus” encerrado dentro da matéria, uma “pombinha branca” comparável ao nous divino da copa de Hermes, a respeito da qual se diz: “Mergulha, se puderes, nesta copa, sabendo para que foste criado” e “crendo que subirás até Ele, aquele que enviou a copa à terra”.

Este nous ou spiritus foi designado pelo nome de “Mercúrio”, e é a este arcano que se refere a sentença dos alquimistas “Est in Merccurio quidquid quaerunt sapientes” (Encontra-se em Mercúrio tudo aquilo que os sábios procuram).”

III. História e psicologia de um símbolo natural

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