“(…)— Há em Fantasia um lugar que leva a toda parte e a que se pode chegar de toda parte. Esse lugar é o Templo das Mil Portas. Ninguém nunca o viu pelo lado de fora, porque não tem lado de fora. O seu interior consiste, porém, em um labirinto de portas. Quem quiser conhecê-lo tem de se aventurar a entrar.
— Todas as portas — continuou o leão —, todas as portas de Fantasia, mesmo uma simples porta de estábulo ou de cozinha, sim, até a porta de um armário, podem ser, em dado momento, a porta de entrada para o Templo das Mil Portas. Se esse momento passa, a porta volta a ser o que era. Por isso mesmo, nunca se pode entrar uma segunda vez pela mesma porta. E nenhuma das mil portas conduz novamente ao lugar de onde se veio. Não há regresso.
(…)
— O que significa isto? Faça o que quiser. Deve querer dizer que posso fazer tudo o que me apetecer. Você não acha? — perguntou ele.
O rosto de Graograman pôs-se de repente muito sério e seus olhos começaram a faiscar.
— Não — disse ele com sua voz profunda e retumbante —. Isso quer dizer que deve fazer sua Verdadeira Vontade. E nada é mais difícil do que isso.
— É o seu segredo mais profundo, que o senhor não conhece.
— Então como poderei descobri-lo?
— Seguindo o caminho dos desejos, passando de um para outro até o último. Assim será conduzido até sua Verdadeira Vontade.
— Não me parece muito difícil — opinou Bastian.
— É o mais perigoso de todos os caminhos — disse o leão.
— Por quê? — perguntou Bastian. — Eu não tenho medo.
— Não se trata disso — respondeu-lhe a voz de Graograman. — Esse caminho exige a maior autenticidade e atenção, porque em nenhum outro é tão fácil perder-se para sempre.
(…) Bastian pensou muito em tudo o que a Morte Multicor lhe dissera. Mas há muitas coisas que não se aprendem só pensando, é preciso vivê-las.
(…)
Bastian já passara muitas vezes de um compartimento, afinal, para outro. Cada uma das decisões que tomava obrigava-o a tomar uma nova decisão, que por sua vez exigia outra decisão ainda.”
ENDE, Michael. A História sem fim.São Paulo: Martins Fontes, 2022, pág. 253-260.
