“Da abertura escura e circular do grande ovo saiu uma escada comprida, tão comprida que não se percebia como tinha cabido dentro do ovo. Finalmente, a escada chegou ao sopé da montanha azul e, quando a imperatriz Criança a segurou, viu que era feita exclusivamente de letras penduradas umas nas outras, e que cada degrau era uma linha. A imperatriz Criança iniciou a subida e, à medida que subia os degraus, ia lendo as palavras que os constituíam (…)
– Velho da Montanha Errante – disse ela em voz alta –, se não queres que nos encontremos, não me devias ter lançado esta escada. É a sua proibição de avançar que está me levando até junto de você.
(…)
Viu à sua frente o ovo e a abertura circular onde acabava a escada. Entrou por ela, que se fechou imediatamente atrás de si. Sem se alterar, ficou à espera, na escuridão, para ver o que acontecia.
Pouco a pouco, começou a ver na escuridão uma luzinha fraca, de cor avermelhada. Ela vinha de um livro aberto, que pairava no ar, no meio do espaço oval. Estava inclinado, para ela poder ver a capa. Era encadernado em seda cor de cobre, e na capa deste livro viam-se duas serpentes que mordiam a cauda uma da outra formando uma figura oval, semelhante às da “Joia” que a imperatriz Criança trazia ao pescoço. Dentro dessa figura oval estava o título: A história sem Fim.
(…)
– Você escreve tudo o que acontece? – perguntou ela.
– Tudo o que escrevo acontece – foi a resposta.”
