A Sombra e a Alquimia da Transformação Interior

“Foi Freud quem descobriu que o fenômeno do recalque constitui um dos mecanismos principais na formação das neuroses. A eliminação, pelo contrário, corresponde a uma decisão moral consciente, ao passo que o recalque representa uma tendência, bastante imoral, de evitar decisões desagradáveis. A eliminação pode causar aflições, conflitos e sofrimentos, mas nunca uma neurose. A neurose é sempre um substitutivo do sofrimento legítimo.

Assim verificamos — como bem observou Henry Drummond em seu tempo— que são as pessoas muito piedosas que, inconscientes de seu outro lado, desenvolvem estados de espírito verdadeiramente infernais, que as torna insuportáveis para seus próximos.

Infelizmente, não se pode negar que o homem como um todo é menos bom do que ele se imagina ou gostaria de ser. Todo indivíduo é acompanhado por uma sombra, e quanto menos ela estiver incorporada à sua vida consciente, tanto mais escura e espessa ela se tornará. Uma pessoa que toma consciência de sua inferioridade, sempre tem mais possibilidade de corrigi-la. Essa inferioridade se acha em contínuo contato com outros interesses, de modo que está sempre sujeita a modificações. Mas quando é recalcada e isolada da consciência, nunca será corrigida. Além disso há o perigo de que, num momento de inadvertência, o elemento recalcado irrompa subitamente. De qualquer modo, constitui um obstáculo inconsciente, que faz fracassar os esforços mais bem intencionados.

Trazemos em nós o nosso passado, isto é, o homem primitivo e inferior com seus apetites e emoções, e só com um enorme esforço podemos libertar-nos desse peso. Nos casos de neurose, deparamos sempre com uma sombra consideravelmente densa. E para curar-se tal caso, devemos encontrar um caminho através do qual a personalidade consciente e a sombra possam conviver.

(…)

A simples repressão não constitui remédio algum, tal como a decapitação não é um remédio para a dor de cabeça.

(…)

Muito mais próxima desse pensamento é a parábola do administrator desonesto [Lc 16] que, sob diversos aspectos, constitui uma “pedra de tropeço”. Et laudavit Dominus villicum iniquitatis, quia prudenter fecisset (E o Senhor louvou o administrador desonesto por ter agido com prudência). Prudenter corresponde a phrónimos do texto grego original, que significa: “ponderado, razoável, sensato”. É inegável que a razão aparece aqui como uma instância de decisão ética.

(…)O ser humano é capaz de realizar coisas espantosas, desde que tenham um sentido para ele. Mas o difícil é criar esse sentido.Naturalmente deve manter aqui uma convicção, mas as coisas mais persuasivas que o homem pode imaginar são medidas pela mesma escala e se mostram insuficientes para que possam também protegê-lo com eficácia contra seus próprios desejos e temores.

Se as tendências reprimidas da sombra fossem totalmente más, não haveria qualquer problema. Mas, de um modo geral, a sombra é simplesmente vulgar, primitiva, inadequada e incômoda, e não de uma malignidade absoluta. Ela contém qualidades infantis e primitivas que, de algum modo, poderiam vivificar e embelezar a existência  humana; mas o homem se choca contra as regras tradicionais.

(…)

Tais problemas nunca serão solucionados por meio de uma legislação ou por artifícios. Só podem ser resolvidos por uma mudança geral de atitude. E esta mudança não se inicia com a propaganda ou com reuniões de massa, e menos ainda com violência. Ela só pode começar com a transformação interior dos indivíduos. Ela produzirá efeitos mediante a mudança das inclinações e antipatias pessoais, da concepção de vida e dos valores, e somente a soma dessas metamorfoses individuais poderá trazer uma solução coletiva.”

 

JUNG, C.G. Psicologia e Religião.Psicologia e Religião Ocidental e Oriental ,OC. Editora Vozes. 2012. Pág.96-100.

III. História e psicologia de um símbolo natural

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