Talvez a anima seja uma representação da minoria dos genes femininos presentes no corpo masculino. Isto é tanto mais verossímil, porquanto esta figura não se encontra no mundo das imagens do inconsciente feminino. Há neste, porém, uma figura equivalente e que desempenha um papel de igual valor: não é a figura de uma mulher, mas a de um homem. A esta figura masculina presente na psicologia da mulher dei o nome de animus. Uma das exteriorizações mais características das duas figuras é aquilo que, há muito tempo, se costuma chamar de “animosidade”. A anima é causadora de caprichos ilógicos, ao passo que o animus suscita lugares-comuns irritantes e opiniões insensatas. Ambas as figuras surgem frequentemente nos sonhos. De modo geral, personificam o inconsciente e conferem-lhe um caráter particularmente desagradável e
irritante.O próprio inconsciente não possui tais propriedades negativas; elas se manifestam principalmente quando ele é personificado por essas figuras, e quando elas começam a influenciar a consciência.
A reação negativa da anima, no sonho alusivo à Igreja, indica que o lado feminino do paciente — seu inconsciente — não concorda com seu modo de pensar.
(…)
De modo geral, constitui algo de extraordinário o fato de um indivíduo, em tais circunstâncias, voltar à religião de sua infância, na esperança de nela encontrar alguma ajuda para seu problema. Não se tratava, porém, de uma retomada ou de uma decisão consciente, de fazer reviver as antigas formas de sua fé religiosa. Ele apenas sonhou com isto, ou melhor, seu inconsciente levou-o a uma singular confrontação com sua religião. Exatamente como se o espírito e a carne — eternos inimigos na consciência cristã — devessem pôr-se às pazes, à custa de um estranho enfraquecimento de sua natureza antagônica. O espiritual e o mundano se acham conjugados numa situação inesperada de paz.
Poucas vezes os sonhos são exclusivamente positivos ou negativos.
Na medida do possível, nunca interpreto um sonho isolado. Em geral, o sonho é parte integrante de uma série. Assim como existe uma continuidade na consciência, apesar de interrompida pelo sono, do mesmo modo talvez exista uma continuidade no processo inconsciente, provavelmente mais ainda do que nos processos da consciência. Em todo caso, minha experiência favorece a hipótese de que os sonhos constituem elos visíveis de uma cadeia de acontecimentos inconscientes.”
JUNG, C.G. Psicologia e Religião.Psicologia e Religião Ocidental e Oriental ,OC. Editora Vozes. 2012. Pág.45-49.
I. A Autonomia do insconsciente
