Comentário ao Texto: O livro Tibetano da Grande Libertação

Antes de entrarmos no comentário propriamente dito, eu gostaria de chamar a atenção do leitor para a diferença profunda e essencial que existe entre o caráter de uma dissertação psicológica e o de um texto sagrado. Um cientista se esquece com demasiada facilidade a maneira objetiva de tratar um tema pode ferir seus valores emocionais em proporção indesculpável. O intelecto científico é desumano e nem pode permitir-se o privilégio de ser diferente. Consequentemente é inevitável que se torne insensível e sem consideração, mesmo quando baseado em motivos positivos. O psicólogo que estuda um texto sagrado pelo menos deve ter a consciência de que tal maté ria representa um valor religioso e filosófico inestimável que não deveria ser violado por mãos profanas. Confesso que só me atrevo a analisar um texto como este porque conheço e aprecio o seu valor.

(…)

Os textos orientais começam, em geral, com uma afirmação que nos escritos ocidentais viriam no fim, como a conclusio finalis de uma longa demonstração. Nós começamos, de preferência, com fatos aceitos e universalmente reconhecidos, e terminamos com o objetivo mais importante de nossa inquirição.

(…) Traduzida em linguagem psicológica, a afirmação acima poderia ser parafraseada do seguinte modo: O inconsciente é a raiz de todas as experiências da unidade (dharma-kâya); é a matriz de todas as formas arquetípicas ou naturais (sambhoga-kâya) e a conditio sine qua non do mundo das manifestações exteriores (nirmâna-kâya).

O prefácio

Os deuses são formas arquetípicas de pensamento que pertencem ao sambhoga-kâya. Seus aspectos pacíficos e coléricos, que de- sempenham papel de grande relevo no Livro Tibetano dos Mortos, simbolizam os contrários: no nirmâna-kâya estes contrários nada mais são do que os conflitos humanos, mas no sambhoga-kâya eles designam os princípios positivos e negativos que se acham unidos em uma só e mesma figura. Isso corresponde à experiência psicológica tal como se acha formulada também no Tao Te King de Lao-Tsé, ou seja, que não há posição que não tenha a sua negação. Onde existe a fé, também existe a dúvida; e onde se acha a dúvida, também está a credulidade; onde está a moralidade, está também a tentação. (…) O fato de os opostos aparecerem como deuses provém da simples constatação de que são muito poderosos. Por esta razão a filosofia chinesa os explica a modo de princípios cósmicos, aos quais chama de yang e yin. Quanto mais se pretende separar os opostos, tanto maior se torna seu poder. “Se uma árvore cresce até o céu, suas raízes se projetam até o inferno”, diz Nietzsche.

Saudação ao espírito único

Esta seção nos mostra claramente que o espírito único é o inconsciente, porque é caracterizado como “eterno, desconhecido, não visível, incognoscível”. Mas ela fala também de traços que correspondem à experiência oriental. São os atributos “sempre claro, eternamente existente, irradiante e sem sombra”. Quanto mais o indivíduo se concentra em torno de seus conteúdos inconscientes, tanto mais carregados de energia eles se tornam; este é um fato psicológico indiscutível. Tais conteúdos são vivificados, iluminados como que a partir de dentro e por assim dizer convertidos numa espécie de realidade substitutiva. Na psicologia analítica nós nos utilizamos metodologicamente deste fenômeno. Denominei a este método de “imaginação ativa”. Inácio de Loyola utilizou-se também da imaginação ativa em seus Exercícios. Há indícios seguros de que a filosofia alquimista faz emprego de semelhante processo.

(…) A necessidade de um tal conhecimento é abundantemente reconhecida no Ocidente, como nos mostram o desenvolvimento da psicologia em nossa época e o interesse crescente por estas coisas. A necessidade generalizada de um maior conhecimento psicológico do homem se origina principalmente do sofrimento ocasionado pelo abandono da religião e pela falta de direção espiritual.

(…) “Como na realidade não existe dualidade, a multiplicidade é uma ilusão.” Esta é, seguramente, uma das verdades fundamentais do Oriente. Não há opostos – a árvore é sempre a mesma, tanto em cima como embaixo. A Tabula Smaragdina afirma: Quod est inferius, est sicut quod est superius. Et quod est superius, est sicut quod est inferius, ad perpetranda miracula rei unius. A multiplicidade é decididamente ilusória quando se sabe que todas as formas singulares provêm da unidade indistinguível da matriz psíquica que se situa nas camadas profundas do inconsciente.

(…)

Naturalmente levanta-se aqui a questão: Por que o uno deverá aparecer distribuído em muitos, numa multiplicidade, se a realidade última é uma unidade universal? O que dá origem ao múltiplo ou à ilusão da multiplicidade? Se o uno se compraz em si próprio, por que deverá se refletir em muitos? Que é mais real: o uno que se espelha, ou o espelho que é usado? Creio que não deveríamos colocar tais questões, uma vez que não há respostas para elas.

A rigor, o espírito, no qual os dois elementos incompatíveis – samsâra e nirvana – acham-se, é o nosso próprio espírito. Esta constatação deriva de uma modéstia profunda ou de uma hybris (orgulho) ousada? Isto quer dizer que o espírito “nada mais é do que” o nosso próprio espírito, ou seja, que nosso espírito é o Espírito? Não há dúvida de que se trata deste último, e do ponto de vista oriental não há hybris alguma. Pelo contrário, trata-se de uma verdade inteiramente aceitável, ao passo que entre nós, ocidentais, seria o mesmo que dizer: “Sou Deus”. Estamos diante de uma experiência “mística” inegável, embora esta pareça discutível para o homem ocidental.”

 

JUNG, C.G.Psicologia e Religião Oriental,OC. Editora Vozes. 2011. Pág. 31-37

Comentário psicológico sobre o livro Tibetano da Grande Libertação

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