Dragão da Sorte

“(…) Tratava-se daquele ser da escuridão, que o seguia desde que se tinha formado. Entretanto, sua figura tinha-se adensado tanto que se podiam agora distinguir claramente seus contornos. Era um lobo, negro como breu e grande como um boi.Sempre com o focinho no chão, seguia a pista de Atreiu no deserto rochoso das Montanhas Mortas. A língua pendia-lhe para fora da boca; tinha os lábios arreganhados e os terríveis dentes à mostra. Os rastros deixados há pouco indicavam-lhe que poucas milhas o separavam de sua presa. E essa distância se encurtava inexoravelmente.

Mas Atreiu nada sabia do seu perseguidor e procurava, lenta e cautelosamente, o seu caminho.

(…) grande Dragão da Sorte, branco, agitando a cauda e as garras (…)

Os Dragões da Sorte são os animais mais raros de Fantásia. Não se parecem com os dragões vulgares, que se assemelham a serpentes monstruosas, habitam cavernas profundas, espalham um cheiro pestilento à sua volta e guardam tesouros reais ou imaginários. Essas criaturas do caos são quase sempre perversas ou insociáveis,(…) Os Dragões da Sorte, pelo contrário, são criaturas do ar e do bom tempo, de uma alegria incontida e, apesar do seu colossal tamanho, são leves como uma nuvenzinha de verão. Por isso não precisam de asas para voar. Nadam pelos ares do céu como os peixes na água. Vistos da Terra, parecem lentos relâmpagos. Mas sua característica mais maravilhosa é o seu canto. Sua voz parece o alegre repicar de um grande sino e, quando falam baixinho, é como se se ouvisse um sino repicando à distância. Quem ouve alguma vez esse canto nunca mais o esquece, e continua a falar nisso aos seus netos.

(…) Só os olhos cor de rubi brilhavam em sua cabeça de leão, indicando que ele ainda estava vivo.

(…)

Só então Atreiú reparou numa coisa que não vira até aí: o corpo dessa criatura horrenda não era compacto e feito de uma só peça; era constituído por uma quantidade infinita de pequenos insetos de cor azul acinzentada, que zumbiam como vespas enfurecidas e, num enxame espesso, adotavam constantemente novas formas.

Era Ygramul, e agora Atreiú já sabia por que lhe chamavam “O Múltiplo”.

(…)

Bastian emitiu um pequeno grito de horror.

Um grito de horror ressoou acima do ruído da batalha ecoando várias vezes nos rochedos.”

ENDE, Michael. A História sem fim.São Paulo: Martins Fontes, 2022, pág. 76-79.

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