Grandes transições – Mito

Jung percebeu o apogeu do mal nos dias atuais como típico das catástrofes históricas que tendem a acompanhar as grandes transições de uma era para outra, no nosso caso, o final da era de Peixes e o início da era de Aquário. Com efeito, estamos até ameaçados de total erradicação da vida na nossa Terra, seja gradualmente, através da destruição do meio ambiente, seja através de uma guerra mundial. O aumento da criminalidade, a ocorrência de holocaustos, e assim por diante, são o primeiro aviso. Todo mundo está falando hoje sobre esses problemas, e ninguém sabe o que deve ser feito. Os apelos à razão parecem não ser ouvidos. Como demonstra a citação acima, Jung também não tinha uma resposta simples, mas estava convencido de que cada indivíduo que conseguisse chegar a um acordo com o mal dentro de si seria capaz de contribuir mais eficazmente para a salvação do mundo do que as maquinações externas idealistas.

O mito precisa, em última análise, levar o monoteísmo a sério e pôr de lado seu dualismo, o qual, persistindo, é extremamente prejudicial moralmente, tem permitido até agora a exaltação de um eterno antagonista ao lado do onipotente Bem. Somente assim pode o Único Deus receber a totalidade e a síntese dos opostos que deveria ser Dele. É indiscutível que os símbolos, em virtude da sua natureza, podem unir de tal maneira os opostos, que estes deixam de divergir entre si, tornando-se mutuamente e conferindo vida a uma forma significativa. Quando isso é vivenciado, a valência existencial da imagem de um Deus da natureza e de um Deus criador deixa de apresentar dificuldades.

Pelo contrário, o mito da encarnação necessária de Deus pode então ser compreendido como a confrontação criativa do homem com os opostos e a síntese deles no Si-mesmo, a totalidade da sua personalidade. Na experiência do Si-mesmo, não são mais os opostos “Deus” e “homem” que se reconciliam, como era antes, e sim os opostos dentro da própria imagem de Deus. Esse é o significado do serviço divino, do serviço que o homem pode prestar a Deus, para que a luz possa emergir das trevas, para que o Criador possa se tornar consciente da Sua criação, e o homem consciente de si mesmo.

Ele chegou a dizer em uma carta que “o afastamento com relação ao numen parece ser universalmente compreendido como sendo o pior pecado e o mais original”.

(…)a realização consciente acentua o bem mais do que obscurece o mal. Torna-se consciente, reconcilia os opostos, criando assim um teor mais elevado.”

FRANZ, Marie-Louise von. Psicoterapia.São Paulo: Paulus, 2021, pág. 239-241.

A dimensão religiosa da análise

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