II A Ioga e o ocidente

O poder tornou-se de tal modo perigoso que é cada vez mais premente a questão, ainda se pode fazer, mas de que modo ria ser constituído o homem ao qual se confia o controle deste “poder”, ou de que maneira se poderia mudar a mentalidade do homem para que renunciasse a seu terrível poder. Seria infinitamente mais importante tirar-lhe a ilusão desse poder do que reforçá-lo na errônea convicção de que pode tudo quanto quer. O slogan “Querer é poder” custou a vida a milhões de pessoas.

O homem ocidental não necessita da superioridade sobre a natureza, tanto dentro como fora, pois dispõe de ambas as coisas de maneira perfeita e quase diabólica. O que ele, porém, não tem é o reconhecimento consciente de sua própria inferioridade em relação à natureza, tanto à volta como dentro de si.

(…)O que ela pretende-se não estou enganado – é desprender, libertar definitivamente a consciência de todas as amarras que a ligam ao objeto e ao sujeito. Como, porém, não se pode libertar o indivíduo daquilo de que ele não está consciente, o europeu deve primeiramente aprender a conhecer o sujeito, que no Ocidente é chamado o consciente. O método da ioga está voltado exclusivamente para a consciência e para a vontade consciente. Um procedimento como este só é promissor se o inconsciente não possuir qualquer potencial digno de nota, isto é, se não encerrar grande parte da personalidade. Se o empreende, então todos os esforços conscientes serão baldados e o produto desta atitude de crispação é uma caricatura ou mesmo o oposto do que se esperaria como resultado natural.Uma parte considerável e importante do inconsciente pressa através da rica metafísica e do rico simbolismo do Oriente, reduzindo, com isto, o potencial desse mesmo inconsciente.

A psicanálise de Freud consiste em fazer com que a consciência do paciente remonte, de um lado, ao mundo interior das reminiscências infantis e, de outro, aos desejos e impulsos recalcados pela consciência. Este processo é um desenvolvimento lógico e consequente da prática da confissão. O seu intuito é provocar uma introversão, a fim de tornar conscientes as componentes inconscientes do sujeito.

(…)

A minha metodologia se baseia, como a de Freud, na prática da confissão. Como ele, também levo em conta os sonhos, mas é na maneira de apreciar os sonhos que nossas concepções divergem. Para ele, o inconsciente é essencialmente um pequeno apêndice da consciência no qual estão reunidas todas as incompatibilidades. Para mim o inconsciente é uma disposição psicológica coletiva de natureza criativa. Dessa divergência radical decorre também uma maneira totalmente diversa de apreciar o simbolismo e seu método de interpretação. Freud procede de maneira essencialmente analítica e redutiva. Eu, porém, acrescento também um procedimento sintético que põe em relevo o caráter finalístico das tendências inconscientes em relação ao desenvolvimento da personalidade. Este ramo da pesquisa trouxe à luz importantes paralelos com a ioga, especialmente com a Kundalini-ioga e com a simbólica tanto da ioga tântrica do lamaísmo, quanto da ioga taoista da China. Estas formas de ioga e seu rico simbolismo nos forneceram materiais comparativos preciosíssimos para a interpretação do inconsciente coletivo.

Mas, em princípio, não aplico todos os métodos da ioga, porque nada deve ser imposto ao inconsciente, no Ocidente. O mais das vezes, a consciência é de uma intensidade e de uma exiguidade convulsivas e por isto não convém acentuá-las ainda mais. Devemos, pelo contrário, tanto quanto possível, ajudar o inconsciente a atingir a consciência, para arrancá-la de seu entorpecimento. Para este fim, utilizo também uma espécie de método de imaginação ativa que consiste em um training especial de desligamento da consciência, para ajudar os conteúdos insconscientes a se expandirem.

Se procedo assim de forma tão acentuadamente crítica e negativa no confronto da ioga, isto não significa de modo algum que eu não considere as aquisições espirituais do Oriente como o que de mais grandioso o espírito humano jamais criou. Espero que de minha exposição resulte com suficiente clareza que minha crítica se volta única e exclusivamente contra a aplicação da ioga ao homem do Ocidente. A evolução espiritual do Ocidente seguiu caminhos totalmente dite desfavoráveis para a aplicação da ioga. A civilização ocidental tem pouco menos de mil anos de existência.; ela deve primeiramente libertar-se de suas unilateralidades bárbaras. Para isto é preciso uma percepção e uma visão mais profundas da natureza do homem. Mas e menos ainda com a imitação de métodos que surgiram de condições psicológicas totalmente diversas. Com o perpassar dos séculos o Ocidente irá formando sua própria ioga, e isto se fará sobre a base criada pelo cristianismo.*

*Nota: Yogananda

JUNG, C.G. Psicologia e Religião Oriental,OC. Editora Vozes. 2011. Pág. 73-76.

A Ioga e o ocidente

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