“Se o europeu pudesse orientar o seu interior e viver como um oriental, com todos os compromissos sociais, morais, religiosos, intelectuais e estéticos que um tal método implica, então talvez pudesse tirar proveito dessa doutrina. Mas é impossível ser um bom cristão na fé, na moral e no desempenho intelectual e, ao mesmo tempo, praticar honestamente a ioga. Tive ocasião de ver inúmeros casos que me deixaram profundamente cético quanto a isto. Ou seja: o homem ocidental não é capaz de se desligar tão facilmente de sua história, como sua memória de pernas curtas. Ele sui esta história como que no sangue. Não aconselharia ninguém a ocupar-se com a ioga sem uma cuidadosa análise de suas reações inconscientes. Que sentido tem imitar a ioga, se o lado obscuro do homem continua tão cristão e medieval quanto antes? Se alguém consegue passar o resto de sua vida em cima de uma pele de gazela, debaixo de uma árvore de Bodhi ou na cela de um Gompa, sem preocupar-se com política ou com a perda de suas economias, seu caso poderá ser considerado favoravelmente. Mas praticar ioga em Mayfair ou na Fifth Avenue ou em outro lugar qualquer ao alcance do telefone é uma mentira espiritual.
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Os diversos termos empregados para exprimir uma ideia “difícil” ou “obscura” constituem uma preciosa fonte de informações sobre o modo pelo qual uma ideia pode ser interpretada. Mostra-nos também até que ponto a ideia apresenta um caráter duvidoso e contraditório, mesmo no país, na religião e na filosofia em que surgiu. Se uma ideia fosse inteiramente inequívoca e universalmente aceita, não haveria a necessidade de designá-la com nomes diferentes.
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É interessante constatar que no Oriente também existem “heréticos” que identificam o si-mesmo com o eu. Entre nós, esta “heresia” é bastante difundida e sustentada por todos aqueles que se acham firmemente convencidos de que a consciência é a única forma de vida psíquica.
O espírito entendido como “instrumento para se atingir a outra margem” indica uma ligação entre a função transcendente e a ideia de espírito ou de si-mesmo. Como a natureza incognoscível do espírito, isto é, do inconsciente, sempre se apresenta à consciência sob a forma de símbolos – o si-mesmo é um destes símbolos –, o símbolo funciona como “instrumento para atingir a outra margem“, ou, dito em outras palavras, é um instrumento de transformação. Em meu artigo sobre a energia psíquica, eu disse que o símbolo atua como um transformador de energia.
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Na análise sistemática de um indivíduo, o redespertar espontâneo das formas ancestrais provoca um restabelecimento (como uma espécie de compensação). É um fato também que os sonhos prenunciadores são mais ou menos frequentes, vendo-se, por aí, o que o texto entende por “conhecimento do futuro”.
A experiência da “unificação” é um exemplo das ideias “fulmi- nantes” (quick knowing) do Oriente, uma intuição de como seríamos se pudéssemos ser e não ser ao mesmo tempo. Se eu fosse maometano, diria que o poder do Todo-Misericordioso é infinito e que só ele é capaz de fazer com que o indivíduo seja e não seja ao mesmo tempo. Mas, por mim mesmo, não posso ver como tal coisa seja possível. Por isso sou de opinião que a intuição ultrapassou seus próprios limites neste ponto.
(…) a psicologia ocidental não fala do espírito único, mas do inconsciente, por ela considerado como uma coisa-em-si, um númeno, “um conceito-limite puramente negativo”, para usarmos a terminologia de Kant. Fomos censurados uso desta expressão negativa, mas infelizmente a honestidade intelectual não me permite recorrer a uma denominação positiva.
O Dharma em Ti
(…)A função transcendente nos mostra, ao invés, que o Oriente tem razão quando acha que a experiência complexa do Dharma provém do “interior”, isto é, do inconsciente; mostra-nos igualmente que o fenômeno da compensação espontânea, que escapa do controle humano, está plenamente de acordo com a expressão “graça” ou “vontade de Deus”.
Esta seção e a precedente acentuam, mais uma vez, que a introspecção é a única fonte de informação e de direção espirituais.
Grandeza destas doutrinas
Esta seção chama ao espírito de “sabedoria natural”. Trata-se, no fundo, quase da mesma expressão que utilizo para designar os símbolos produzidos pelo inconsciente. Chamo-os de “símbolos naturais”. Escolhi esta expressão antes de ter conhecido o presente texto.
A Grande Luz
Na maioria das formas de misticismo a experiência mística cen- 828 tral aparece simbolizada, com justeza, pela luz. É estranhamente paradoxal que o aproximar-se de uma região que parece um caminho que nos leva à escuridão tenha por resultado a luz da iluminação. Mas trata-se aqui da usual enantiodromia per tenebras ad lucem (à luz através das trevas). Em muitas das cerimônias de iniciação, efetua-se uma xaτáẞaois εiç άvтpov (uma descida à caverna), um mergulho nas profundezas da água batismal ou uma volta ao seio materno onde se dará o novo nascimento.”
JUNG, C.G.Psicologia e Religião Oriental,OC. Editora Vozes. 2011. Pág. 38-46.
Comentário psicológico sobre o livro Tibetano da Grande Libertação

