II Comentário psicológico ao Bardo Thodol

“É inteiramente lógico que, logo de início, explique-se o primado da vida ao morto, pois é sobretudo através da vida que tudo se explica. Durante a vida somos envolvidos por um sem-número de coisas que se entrechocam e se comprimem e em meio às quais nem sequer temos ensejo de pensar, diante desses “dados” puros e simples, quem verdadeiramente os “deu”. É a partir destes dados que o morto se liberta, e as instruções têm por escopo precisamente apoiar este processo de libertação. Coloquemo-nos no lugar do morto, e não será pouco o proveito que tiraremos dessas instruções, pois já no primeiro parágrafo ficamos sabendo que o “doador” de todos esses “dados” habita dentro de nós, verdade esta que nunca é suficientemente entendida, apesar de sua evidência, tanto nas máximas como nas mínimas coisas, mas seria necessário e até mesmo imprescindível que o soubéssemos. Tal conhecimento só é próprio de pessoas de índole meditativa cujo propósito é conhecer o que estão vivendo, uma espécie de gnósticos segundo o temperamento, que acreditam em um salvador chamado, como o dos mandeus, de “conhecimento da vida” (manda d’hayyê). (…) Evidentemente, a natureza animal do homem tem repugnância de sentir-se como a autora de seus próprios dados. É por isso que tentativas semelhantes sempre foram objeto de iniciações secretas, das quais, em geral, faz parte uma morte figurada que simboliza o caráter de totalidade da conversão.

O único “processo de iniciação” ainda vigente no âmbito da civilização ocidental é a prática da “análise do inconsciente” adotada por certos médicos. Esta penetração nos subterrâneos e nas raízes da consciência, determinadas por razões de ordem terapêutica, é sobretudo uma maiêutica racional no sentido socrático do termo, uma conscientização do conteúdo psíquico em estado embrionário e subliminar e ainda por nascer. 

(…)Entre os psicanalistas houve mesmo quem defendesse o ponto de vista de que o parto é o trauma par excellence. Há, inclusive, quem afirme ter recuado até às reminiscências da fase intrauterina. Mas, com isto, infelizmente, a inteligência ocidental atinge seus limites. Seria interessante que a análise freudiana tivesse ido mais longe ainda, na busca dos assim chamados vestígios de experiências de vida intrauterina; esta empresa ousada tê-la-ia conduzido até o último capítulo do Tschönyid Bardo, num percurso feito do fim para o início, passando pelo Sidpa Bardo. Mas, com os conceitos biológicos de que dispomos, não se teria chegado a resultado algum, pois, para isto, seria necessário uma preparação totalmente diversa daquela que nos oferecem os pressupostos das Ciências Naturais. Caso tivesse sido possível descobrir pelo menos vestígios de tal experiência, uma busca retrospectiva teria conduzido ao postulado de uma vida anterior ao nascimento, a uma verdadeira existência de Bardo. Mas não se foi além de suposições a respeito de resíduos de experiências intrauterinas, enquanto que o chamado “trauma de parto” não passa de mero lugar comum, que nada explica, o mesmo acontecendo com a hipótese segundo a qual a vida é uma enfermidade com prognóstico desfavorável porque termina sempre em óbito.

(…)não há dúvida de que a teoria freudiana constitui a primeira tentativa de explorar, como que a partir de baixo, isto é, da esfera dos instintos animais, aquele domínio da que corresponde ao Sidpa Bardo do lamaísmo tântrico. Mas um temor metafísico, nada menos do que justificado, impediu Freud de avançar pela esfera “oculta” adentro. 

(…)

A visão oriental do carma é uma espécie de genética psíquica que se apoia na hipótese da reencarnação, isto é, da supratemporalidade da alma, quanto ao último ponto de vista. Nem nossa ciência nem nossa razão podem aderir a esta concepção. Para nós ela suscita muitos poréns e muitos ses. Antes de tudo, sabemos desesperadamente muito pouco acerca de uma possível continuação da psique além da morte, de tal modo que é impossível prever o que se poderá apresentar como prova a seu respeito.

(…)o conceito de carma só deve ser admitido com prudência, uma o entendamos no sentido amplíssimo de herança psíquica. a herança psíquica, isto é, uma herança de peculiaridades psíquicas tais como, por exemplo, certas disposições a contrair uma doença, traços do caráter, dotes naturais etc. São manifestações vitais básicas que se fazem sentir de modo particular no plano da psique, assim como também há peculiaridades hereditárias sensíveis sobretudo ao plano fisiológico, isto é, físico. Mas entre as qualidades psíquicas hereditárias há uma classe particular que não encontra limitações essenciais nem de ordem familiar, nem no plano racial. São as disposições espirituais de caráter genérico, entre as quais devemos consi- derar de modo particular um certo tipo de formas de acordo com as quais o espírito ordena, por assim dizer, os seus conteúdos. Poderíamos chamá-los também de categorias, analogicamente às categorias lógicas que existem sempre e por toda parte e que constituem os pressupostos essenciais e imprescindíveis do intelecto. Só que no caso das “formas” em apreço não se trata de categorias do intelecto, mas de categorias da faculdade imaginativa. Como os produtos da fantasia são sempre diretamente acessíveis à observação, no sentido mais amplo do termo, suas formas a priori têm o aspecto de imagens, e de imagens típicas, às quais, por esta razão, dei o nome de arquétipos, inspirado na antiguidade clássica. A pesquisa comparada das religiões e dos mitos, do mesmo modo que a psicologia dos sonhos e das psicoses são verdadeiras minas de dados. O espantoso paralelismo existente entre tais imagens e as ideias por elas expressas deram azo frequentemente até às mais ousadas teses de migração, quando o mais lógico teria sido pensar em uma semelhança notável da alma humana em todas as épocas e em todos os lugares. Na realidade, as formas arquetípicas geradas pela fantasia se reproduzem espontaneamente sempre e por toda parte, sem que se deva pensar, nem mesmo de longe, em uma transmissão por via direta. As relações estruturais primitivas da psique são de uma uniformidade e semelhança surpreendente às de um corpo visível. Os arquétipos são como que órgãosda psique pré-racional. São sobretudo estruturas fundamentais características  sem conteúdo específico e herdadas desde os tempos mais remotos. O conteúdo específico só aparece na vida individual em que a experiência pessoal é vazada nessas formas.

(…)

(…) também cha mei aos arquétipos de dominantes do inconsciente. Mas dei o nome de inconsciente coletivo à camada inconsciente da alma, constituída por essas formas dinâmicas universalmente difundidas.

Ao que eu saiba, não há reminiscências pré-natais herdadas. O que existe são estruturas arquetípicas fundamentais mas sem conteúdo, principalmente por não conterem experiências subjetivas. Estas estruturas só afloram à consciência quando as experiências pessoais se tornam perceptíveis.”

JUNG, C.G.Psicologia e Religião Oriental,OC. Editora Vozes. 2011. Pág. 53-58.

Comentário psicológico ao Bardo Thodol

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