“Muitas vezes se lê ou se ouve falar dos perigos da ioga, em parti cular dos perigos da mal-afamada kundalini ioga. O estado psicótico provocado intencionalmente e que em certos indivíduos portadores de tara se transforma numa verdadeira psicose, dependendo das circunstâncias, é este perigo crescente que se deve levar muito a sério. Trata-se aqui, realmente, de coisas perigosas nas quais não se deve mexer, embora nos sintamos tentados a fazê-lo: seria uma ção no destino, atingindo as mais profundas camadas da existência humana e podendo abrir uma fonte de sofrimentos com os quais, em são juízo, nunca se teria sonhado.
(…)
Ao cunhar a afirmação de que o eu é “o verdadeiro lugar do medo”, Freud deu expressão a uma intuição muito profunda e muito real. O medo da autoimolação está à espreita, por trás e dentro de cada um, pois o temor é a encarnação das for- ças inconscientes que só com muita dificuldade conseguimos impedir que produzam todas as suas consequências. Nenhum caso de autodesenvolvimento (individuação) escapou a esta travessia perigosa, pois o objeto de temor, isto é, o mundo tanto inferior como superior das dominantes psíquicas do qual o eu já se emancipou com muita fadiga e somente até certo ponto, rumo a uma liberdade ilusória, faz parte da totalidade do si-mesmo. Esta liberdade é uma empresa heroica certamente necessária, mas não constitui nada de definitivo, pois representa apenas a formação de um sujeito ao qual, para que possa atingir a plena realização, é preciso que se contraponha o objeto. Parece que se trata em primeiro lugar do mundo, que é inflado de projeções também para este fim. O indivíduo procura e encontra suas dificuldades, procura e acha seu inimigo, procura e acha o amado e precioso, e é bom saber que todo o mal e todo o bem se situam do lado de lá, no objeto visível onde é possível triunfar, castigar, destruir ou fazer feliz. Mas a própria natureza nem sempre permite este estado paradisíaco de inocência do sujeito por um tempo prolongado. Há atualmente, como sempre houve, aqueles que não conseguem deixar de perceber que o mundo e a vida terrena possuem uma natureza de caráter parabólico e que, propriamente falando, são uma cópia de algo que jaz imerso nas camadas mais fundas do próprio sujeito, na própria realidade transubjetiva.
(…)
O processo de transformação do inconsciente que se opera durante a análise é o análogo natural das iniciações religiosas levadas a efeito de forma artificial mas que, em princípio, diferenciam-se do processo natural, por anteciparem a evolução natural e por substituírem a produção natural dos símbolos por símbolos escolhidos de propósito e fixados por tradição, como acontece, por exemplo, nos Exercícios de Inácio de Loyola ou nas meditações da ioga budista ou tântrica.
(…)
O caráter degenerativo da vida de Bardo está otimamente documentado na literatura espírita do Ocidente, que repete até à náusea a impressão causada pela execrável banalidade das comunicações dos espíritos. Nossa visão científica não hesita em classificar os relatos dos espíritos como emanações do inconsciente dos médiuns e dos que participam das sessões, e em aplicar a nossa maneira de explicar as coisas à descrição que o mencionado livro dos mortos nos dá do além-túmulo. Na verdade, não se pode negar que o livro inteiro foi extraído dos conteúdos arquetipicos do inconscietnte. Por trás dele não há (e nisto nossa ratio ocidental está certa) realidades físicas ou metafísicas, mas “tão-somente” a realidade dos dados psíquicos. O problema é o de saber se existe algo que é “dado” de forma subjetiva ou objetiva. (…) O mundo dos deuses e o mundo dos espíritos “nada mais são do que” o inconsciente coletivo em mim. Invertendo esta frase, teríamos o seguinte: O inconsciente é o mundo dos deuses e dos espíritos fora de mim, e isto não exige uma acrobacia intelectual, mas sim toda uma vida humana e até mesmo muitas vidas humanas, de integridade cada vez maior. Propositalmente deixei de usar a palavra “perfeição”, pois os “perfeitos” fazem descobertas inteiramente diferentes.”
JUNG, C.G. Psicologia e Religião Oriental,OC. Editora Vozes. 2011. Pág. 59-66.
Comentário psicológico ao Bardo Thodol

